Protecção
Integrada ou “Boa” Prática Fitossanitária
As
Medidas agro-ambientais, adoptadas na reforma da Política Agrícola
Comum, em Junho de 1992, para ajudar os agricultores na prática de uma
agricultura mais respeitadora do Homem e do Ambiente, tiveram início, em
Portugal, em 1994.
A
Medida 3 - Protecção Integrada,
visando a prática desta moderna
tecnologia de protecção das plantas, só foi concretizada a partir de 1996,
por ausência de regulamentação. Mesmo assim, destacou-se do conjunto das 20
Medidas, localizando-se em 2º lugar, com o investimento de cerca de 8 milhões
de contos. Entre 1996 e 1999, receberam ajudas cerca de 8.000 agricultores,
com a área de 58.000 ha de culturas como: vinha (71,5%), pomóideas (21,5%),
citrinos (4,1%) e prunóideas (2,9%).
Na
actual fase de programação do 3º Quadro Comunitário de
Apoio, prevê-se a
continuação das ajudas ao desenvolvimento da protecção integrada e também
da produção integrada. Mantem-se, contudo, a evidência de tentativas para
travar a evolução da promissora realidade da Protecção Integrada,
procurando a sua substituição ou subalternização a alternativas como: o
uso racional dos pesticidas; o acto
responsável na utilização dos pesticidas; e a “utilização
correcta dos pesticidas reduzindo os riscos de contaminação provenientes
do seu uso.” Perante a frequente utilização, em Bruxelas, do conceito de
Boa Prática Agrícola insiste-se, agora, na “Boa”
Prática Fitossanitária.
A
nível da tomada de decisão é natural que os políticos e os altos funcionários,
raramente com formação especializada nestas matérias, aceitem tais opções
desconhecendo as suas razões profundas, mas será, certamente, esclarecedor o
conhecimento das origens de tais preferências.
Por
isso, será útil evidenciar como são tão importantes para a defesa
do Homem e do Ambiente, as flagrantes diferenças entre a “Boa” Prática
Fitossanitária, isto é a “Boa” Prática dos Pesticidas Agrícolas e a Protecção Integrada
(Quadro 1).
Quadro 1 -
Diferenças entre a “Boa” Prática Fitossanitária e a Protecção
Integrada, com óbvias consequências na defesa do Homem e do Ambiente.
Característica
Protecção
Integrada
“Boa”
Prática Fitossanitária
Objectivo
- redução do uso de pesticidas
sim
não
Recurso
à luta química só em última
alternativa
sim
não
Proibição
de pesticidas muito tóxicos para
o Homem
sim
não
Proibição
de pesticidas muito tóxicos e tóxicos
para os auxiliares
sim
não
Proibição
dos pesticidas (ex.: simazina) com perigo de contaminação
da água
sim
não
Reforço
da segurança do agricultor
ou outro aplicador de pesticidas
sim
não
Menos
pesticidas, redução da toxidade dos pesticidas para o Homem e para os
auxiliares, maior segurança para o agricultor e menor contaminação da água
pelos pesticidas, eis as vantagens da Protecção Integrada em relação à
“Boa” Prática Fitossanitária (Quadro 1)! E a dimensão destes problemas
é surpreendente. Basta analisar o conjunto dos pesticidas agrícolas homologados
em Portugal, e a que recorre a “Boa” prática fitossanitária, e o
conjunto dos autorizados em protecção integrada.
Em
1999 foram comercializadas, em Portugal, 360 diferentes substâncias activas
de pesticidas agrícolas. Nos insecticidas, 24% eram pesticidas de caveira
(muito tóxicos e tóxicos para o Homem) e havia 20 substâncias activas
extremamente perigosas, 77 muito perigosas e 185 perigosas, em particular para
peixes, abelhas
e outros organismos aquáticos.
No
caso da pereira Rocha, existiam no mercado 238 substâncias activas homologadas
para o conjunto de 30 inimigos
da pereira. Mais de metade, isto é, 55%
destas substâncias activas são
proibidas em Protecção Integrada, principalmente pela sua toxidade para
os auxiliares (ex.: joaninhas) e também para o Homem e por risco de contaminação
da água. Têm, ainda, o seu uso
condicionado 11% das 238 substâncias activas e só
34% são autorizadas em Protecção Integrada sem restrições.
Para
reforçar estas indiscutíveis vantagens da protecção integrada, de natureza
sanitária e ecológica, eliminando dos campos de cultura os pesticidas mais
perigosos e tóxicos, está já bem demonstrado pela prática da protecção
integrada em muitos milhares de hectares e também nos 50 campos de demonstração
financiados pelas Medidas agro-ambientais que a protecção integrada
proporciona, frequentemente, em culturas como pomóideas, citrinos e até na
vinha, economias de 20% a 60% no
custo do uso dos pesticidas, sem redução de produção.
É
essencial e urgente que toda a comunidade científica e técnica que conhece
esta realidade, alerte os políticos e os altos funcionários dos óbvios
riscos da preferência da “Boa” Prática Fitossanitária em relação à
mais “soft”, mais “doce”, mais “verde” e até mais económica
Protecção Integrada.