A produção de
produtos alimentares, tem sido motivo de grandes interrogações, quando não de
fortes reservas relativamente às tecnologias empregues na sua obtenção.
Com efeito,
quer a consciência claramente acrescida dos consumidores em matéria tão sensível,
quer o conjunto de episódios que com alguma frequência tem sido divulgados,
vem colocar este assunto na primeira linha das actuais preocupações das
autoridades e dos cidadãos.
Ainda
recentemente em Seattle se assistiu à falência do encontro promovido sob a égide
da Organização Mundial do Comércio,
exactamente por não se levar em conta a opinião da generalidade dos
consumidores.
Aqui, também
quando entre os dossiers se encontravam matérias que opõem, culturas,
interesses comerciais, realidades sociais e políticas diferentes, se verifica
que o choque é inevitável e que o conflitos de interesses atingem dimensões
que conduzem ao bloqueio de soluções possíveis.
No caso da OMC
e da conferência de Seatle, o principio da precaução não foi tido em
conta e temas como o bife com hormonas e os materiais transgénicos,
faziam parte dos bloqueios, em pé de igualdade com as políticas ditas
proteccionistas, no âmbito agrícola.
Na Europa a BSE
e as Dioxinas, são dossiers cuja importância e dimensão abanaram os
alicerces da União Europeia, puseram em
causa os europolíticos, desacreditaram a capacidade da Comissão
para pôr em prática uma política credível, fizeram rolar vários políticos
em diversos países e mesmo Governos, tudo isto, apesar do sucesso do Mercado Único,
da redefinição da Política Agrícola Comum, da Agenda
2000, da consolidação do Euro e até do estabelecimento de uma política
externa e de defesa comum.
É perante o
verdadeiro terramoto político que constitui a dúvida que se instalou no
consumidor, que urge a tomada de iniciativas com vista uma solução global, que
satisfaça os mais cépticos e concilie os interesses divergentes.
A alteração
da estrutura da Comissão com a criação da Direcção
Geral XXIV, dos Consumidores, não deu resposta concludente às questões e
problemas existentes, e, hoje, praticamente dois anos após a publicação do
livro verde sobre a segurança alimentar, eis que se prepara a apresentação do
livro branco sobre a segurança alimentar, numa altura em Portugal irá assumir
a presidência da União
europeia.
Está em pleno
debate a criação da Agência de Segurança Alimentar, cujos modelos se
encontram em fase do definição, com o contributo de várias instâncias
europeias e a participação de todos os países membros.
É pois de uma
importância enorme o período que está a decorrer, não só em termos europeus
mas, com influência decisiva no âmbito da OMC,
pelo que a clarividência dos interlocutores deverá ser capaz de ultrapassar os
interesses regionais e comerciais, redutores de uma solução consistente e
realista.
E em Portugal?
Sabe-se que no
anterior Governo e face às dificuldades sentidas, foi o Conselho de Ministros
chamado a intervir, aprovando uma Resolução que visava desencadear a
avaliação de como na Administração, os diferentes organismos intervinham com
a finalidade de apresentar a solução para eventuais estrangulamentos.
Decorridos vários
meses, em concreto cerca de quinze longos meses é conhecida a posição do
grupo de análise, que envolveu representantes do Ministério da Agricultura, da
Saúde, do Ambiente e do Comércio, e que avançou com uma proposta, o
relatório Caupers que não recolheu a sensibilidade de outros participantes e não
avançou também com soluções inovadoras.
Com a tomada de
posse do novo Governo, o Partido que o apoia, fez uma proposta ao eleitorado
para a criação de uma política de segurança alimentar e o Secretário de
Estado da Modernização Agrícola e Qualidade Alimentar anunciou que seria
criada uma Agência com essas atribuições.
Mais
recentemente o Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro, reafirmou a intenção do
Governo nesta matéria, por ocasião da visita ao nosso país do Comissário
para os consumidores, Senhor David
Byrn.
Assim tudo
parece ajustar-se, por um lado a conjuntura política favorável, por outro lado
a necessidade de resposta a problemas ingentes, designadamente a crescente
preocupação com as questões relativas à BSE, (embargos ou classificação
dos países ou regiões).
Que garantias
para o consumidor?
Tudo isto como
dissemos, numa altura em que a Portugal cabe assumir a Presidência, portanto
com responsabilidades acrescidas, tanto interna como internacionalmente.
Somos de opinião,
que no decorrer do ano 2000, passos decisivos serão dados nesta matéria.
Admitamos
contudo que, o avaliar o risco que existe é uma coisa e os franceses assim o
entenderam e não foram por arrastamento criar soluções de adicionar a gestão
e a comunicação do risco, que são coisa bem diferente, à sua Agência.
Essa tarefa, a
dos controlos, atribuíram-na aos organismos sectoriais especializados.
Essa é também
a posição da Finlândia
que nos antecedeu na Presidência.
Assim, seja Agência,
Alta Autoridade ou Instituto, haja a lucidez, quer a nível europeu, quer
nacional, de aprender com os erros cometidos.
Por outro lado,
não adiantará muito aprovar e homologar designações de origem, marcas
registadas e promover comercialmente produtos, é a credibilidade de um sistema
independente que está em causa, pois de contrário e uma vez mais serão
goradas as expectativas e postos em causa os princípios que garantem a confiança
dos cidadãos e valorizam os produtos bem como as tecnologias utilizadas.
Hoje, mais do
que em alguma ocasião, a questão não está em produzir produtos alimentares,
mas em conseguir vender, em ganhar mercado, em suma, ter capacidade para
garantir a segurança da cadeia alimentar.
Queremos crer não
estarmos em condições de desperdiçar outra oportunidade, neste debate que se
trava na Europa dos excessos de produção, em que somos dos países com forte
dependência do exterior, designadamente em termos de balança alimentar.
Decisivamente
aguardamos que o ano de 2000 seja de bom augúrio em todos os domínios.
10/01/2000
José Augusto Cardoso de
Resende (Médico
Veterinário)