1 - Vai esta Primavera quase um Verão! Vivo na cidade (contrafeito
porque, na infância, aprendi a viver no campo) onde ouço todos os dias: Que
belo dia! Está tempo de praia! Oxalá que este tempo se mantenha! Então bom
fim de semana (subentende-se com muito Sol)...
É
assim. Dependesse a chuva de uma decisão citadina, como é o caso da maioria
das que hoje mais importam à sociedade, que não voltaria a chover tão cedo!
2
- É assim, nesta questão mas também em muitas outras. Isto é, a população
que vive da agricultura tem vindo a decrescer e aumenta aceleradamente o número
daqueles que vivem na cidade, sobretudo em actividades de serviços. O número
de votantes de mentalidade citadina, mentalidade que era apanágio de Lisboa,
do Porto e duas ou três outras urbes mais importantes mas que hoje já
se encontra em muitas vilas – o que, eventualmente, também é bom e sinal
de progresso – o número maior dos votantes, dizia eu, está hoje longe dos
problemas da agricultura e do campo. Logo os políticos têm tendência para
querer agradar a estes. Os meios de comunicação tendem a informar como estes
sentem ou querem ouvir.
3
– É crescente o número dos que se preocupam com os problemas ambientais.
É normal, num pequeno globo com uma população em explosão demográfica.
Mas muitos dos problemas que são apresentados publicamente como os de maior
relevância, muitas vezes não me parece que o sejam. Confunde-se o essencial
e o acessório. Por exemplo, a constituição de parques
e áreas protegidas é muitas vezes um simulacro de conservação. Os
parques e reservas, mesmo que sejam cientificamente correctos os critérios
que levaram à sua constituição – o que é muito discutido com
profundidade em inúmeros países do mundo, e certamente muito discutível
também em muitas circunstâncias no nosso país - falham inúmeras
vezes os objectivos que estiveram na sua origem. Para além de que a resolução
de alguns problemas ambientais em “ilhas” não resolve os problemas de
fundo. No limite, deveríamos viver num país ordenado no seu todo, onde todos
os recursos fossem utilizados sabiamente e de forma sustentada. Mas o
ordenamento e o planeamento, ou aquilo a que se dá esse nome, é tantas vezes
fruto de tão diversas pressões e interesses!
4
– Muitas das áreas que se pretendem preservar e que hoje se chamam de
“naturais” são afinal o produto de actividades humanas. Por vezes de
actividades milenárias. O agricultor, o florestal, o pastor, intervieram
profundamente no meio e moldaram, tantas vezes com dureza, os espaços que
hoje queremos para contemplação!
5
– Só muito recentemente a sociedade tem vindo a reconhecer aos que utilizam
a terra esta função de ambientalistas. Há dez anos não se falava tão
pouco nas medidas
agroambientais, hoje reconhecidas na PAC e através das quais os
agricultores são compensados (ainda muito incipientemente) por serviços
ambientais que prestam à comunidade. Quantas vezes sem sequer terem a noção
de que o estão a fazer.
6
– Equinócio da Primavera. Dia estabelecido, vai para um século, para
festejarmos a Árvore. Depois para o consagrarmos como o Dia
Mundial das Florestas. Árvores e Florestas que são essenciais para
salvaguardar o futuro da humanidade. Dos habitantes deste pequeno globo
superpovoado, rodando sem parar em torno do Sol...
7
– Se só dispensarmos à Árvore e à Floresta um só dia, que será de nós?
Porque será que a cidade e os políticos, e os meios de comunicação se
ocupam tão pouco de um bem tão precioso, tão essencial num país de
magros recursos, onde os números provam sobejamente que a actividade
florestal pode ser – já o é - uma das molas essenciais do desenvolvimento?
Cuja política terá um papel preponderante em diversas facetas desse poliedro
complexo dos problemas ambientais, da produção sustentada, da conservação
dos recursos e do mundo? É preciso bradá-lo aos quatro ventos...
8
– Equinócio da Primavera, ano 2000. Era da globalização, da
comunicação. Era em que há biliões, na sua maioria jovens, a navegar na
internet. É preciso colocar aí, nesse espaço aberto e livre de informação,
de debate, de construção de uma sociedade diferente, alguns dos temas que
referi. Trazer a gestão das árvores, das florestas, dos espaços florestais
para esta ribalta. Para que ganhem força e popularidade e os políticos lhes
prestem mais atenção.
9
– É preciso trazer para a internet, para a sua primeira linha – e
permito-me felicitar por isso a iniciativa da criação deste agroportal
– a informação necessária para que a sociedade se aperceba da importância
da função do agricultor e do silvicultor na conservação do meio. É
preciso que a sociedade entenda que sem agricultores, vivendo uma vida digna e
próspera, não será possível conservar os espaços rurais, a que na cidade
ouço chamar... naturais.