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OPINIÃO

Que margem de manobra para Portugal no dossier quotas leiteiras? (continuação)


Pedro Pimentel

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Há meses, na sua última visita oficial a Pequim, o presidente americano George W. Bush fez, numa intervenção no Congresso do Povo, ameaças veladas mas muito sérias à China em relação ao dumping implícito no seu modelo de produção e ao modo como essa forma de agir estava a prejudicar a indústria têxtil norte-americana, que, como se sabe, não é sequer (longe disso), um dos sectores mais importantes da economia do tio Sam. E nessa altura, algum dos escribas nacionais se lembrou de questionar a capacidade empresarial do têxtil americano ou os seus problemas de competitividade? Claro que não...

Em relação à fileira do leite, os diferenciais de competitividade provêm de outros factores, mas, na raiz, as questões não são assim tão diferentes. Os maiores defensores da liberalização do mercado lácteo comunitário são, como é sabido, a Holanda e a Dinamarca e, por razões distintas, o Reino Unido.

O objectivo pretendido não está sequer escondido atrás de nenhuma táctica especial. A pretensão é simples: num cenário de rápido desmantelamento das quotas e livre produção, as entregas nesses países tenderão a aumentar e os preços à produção no interior da UE deverão cair para níveis mais próximos dos do mercado mundial. Desta forma, e em face do previsível abandono produtivo que se verificaria nas áreas consideradas menos competitivas (basicamente todo o Sul da Europa), pela respectiva incapacidade de produzir a esse novo nível de preços, os produtos daqueles países encontrariam nos mercados 'maduros' da Europa do Sul um espaço natural (e bem remunerado) para a sua comercialização.

No entanto, quando se aborda a questão das negociações OMC verifica-se que a posição europeia (e especialmente das grandes empresas lácteas europeias) aponta no sentido do prolongamento tão amplo quanto possível do regime de restituições à exportação - apesar do seu desmantelamento já haver sido decidido na Cimeira de Hong Kong - ou da limitação da cláusula de acesso de produtos provenientes de países terceiros. A redução dos direitos alfandegários é objecto de 'éne' simulações e o recurso à cláusula de produto sensível para a manteiga ou o leite em pó desnatado não está, de forma alguma, colocada de parte.

Daqui se conclui da forte relatividade que incide, em qualquer circunstância, sobre a competitividade, conceito, por definição, comparativo. Se levarmos o conceito ao extremo, Portugal (com excepção provável dos Açores) e muitas outras regiões europeias deveriam abdicar da produção de leite por a mesma ser mais competitiva em países como a Holanda, a Irlanda, a Dinamarca, a Polónia, os Estados Bálticos, algumas zonas da Alemanha ou o Norte de França.

Porém, se a análise extravasar o espaço Europeu, então mesmo esses países deveriam abdicar da produção leiteira por não conseguirem ser competitivos face, por exemplo, à Nova Zelândia e à Austrália, os quais, por seu lado, estão actualmente a desenvolver estudos que demonstram que eles próprios não conseguem ser competitivos face às condições de produção da Argentina, do Uruguai ou do Sul do Brasil...

A competitividade para além do que tem de comparativo dentro de si, é também, por definição, um conceito dinâmico e se factores há que pela sua natureza, dificilmente podem ser invertidos, existem outros em que, com arte e engenho, capacidade e perseverança, se pode 'correr' mais depressa que os nossos competidores, queimar etapas que outros fizeram com resultados menos positivos (é a vantagem de partir depois) e, acima de tudo, potenciar os aspectos onde podemos ter ganhos de eficiência mais significativos.

O sector de lacticínios acaba por se constituir como um bom exemplo disso mesmo. Quando em 1986, Portugal adere à então Comunidade Económica Europeia, muito poucos foram os que acreditaram na sobrevivência do sector e menos ainda os que apostaram no seu sucesso. Uma negociação muito positiva em relação à quota leiteira a atribuir a Portugal permitiu um espaço de crescimento que, goste-se ou não, foi positivamente aproveitado por produção e indústria para se redimensionar e melhorar no seu grau de eficiência.

Haverá quem pense que os tempos eram outros e que as questões não eram abordadas de forma tão cuidadosa como hoje a UE faz relativamente aos diversos novos Estados-membro, mas vale a pena lembrar que em 1986 a CEE passou de 12 a 15 membros, sendo que os nossos 'companheiros de viagem' foram a Espanha e a Grécia, os quais, vinte anos decorridos continuam a queixar-se da escassa quota que lhe foi atribuída, sendo - para ambos países - o leite um dos dossiers de principal conflitualidade com Bruxelas.

Nestes vinte anos e muito especialmente a partir de meados da década de noventa, todos os indicadores estruturais do sector lácteo nacional apresentaram crescimentos muito rápidos e, saliente-se, muito mais rápidos do que os verificados para o conjunto dos quinze países da 'velha' União Europeia. É certo que estamos ainda longe dos valores de referência comunitários, mas é certo também que o sector continua a apresentar - caso lhe sejam dadas condições para isso - espaço para uma estruturação a velocidade mais rápida do que a dos seus parceiros da Europa Ocidental. É a velha teoria do copo meio cheio ou do copo meio vazio...

A indústria, confrontada com uma evolução do mercado muito rápida, com a emergência de uma moderna distribuição organizada, mas agressiva e com uma abertura de fronteiras que retirou quaisquer obstáculos à entrada de produtos europeus nos nossos espaços comerciais, foi obrigada a repensar as suas estratégias, a definir objectivos de mercado, a realizar investimentos criteriosos.

Hoje, a indústria de lacticínios nacional tem no seu seio um razoável conjunto de unidades de bom nível, de apreciável capacidade técnica e bem dimensionadas para os seus mercados de actuação e mesmo, naquele que é de há muito o segmento mais atomizado - o do fabrico de queijo - estão concluídos ou em curso investimentos estruturantes que poderão contribuir, de forma decisiva, para um salto qualitativo (e quantitativo) das respectivas produções.

Do lado da produção leiteira, é inegável a forte evolução verificada na última década, sendo cada vez maior o peso do leite proveniente de explorações profissionais e bem organizadas. Considero haver, contudo, ainda algum déficit ao nível da gestão de algumas dessas mesmas explorações, o que se deve, julgo, quer ao facto de uma parcela significativa dos produtores apresentar uma idade algo avançada, quer, mesmo em relação aos produtores mais jovens, a algumas deficiências ao nível deste tipo de formação mais específica.

Regressando por momentos ao tema da competitividade, convém não esquecer que a fatia maior das chamadas vantagens comparativas resulta da possibilidade de produzir igual ou melhor, mas essencialmente mais barato, do que os nossos mais directos competidores. E deve ser igualmente lembrado, que num cenário de compressão dos preços do leite à produção, a manutenção de margens da actividade terá obrigatoriamente de provir da capacidade de produzir com menos custos.

Penso que haverá aqui uma segunda interessante oportunidade de actuação, com o estudo das estruturas de custos das diversas tipologias de explorações que se espalham pelo nosso território, tentando encontrar algumas alternativas aos procedimentos mais tradicionais de produção, equacionando sem tabus a forma mais económica e eficiente de alimentar os animais, tendo em vista determinado 'resultado' produtivo, questionando de forma séria as opções ao nível da aquisição (e 'durabilidade') dos animais para produção. Verificando, em síntese, todas as oportunidades de redução de custos na operação da nossa exploração.

Mas esse exercício poderá ir mais longe e tentar construir os diversos modelos de 'exploração ideal', mais adequados a cada uma das regiões leiteiras do nosso país, combinando dimensões mínimas com disponibilidades efectivas ao nível do solo ou das reservas alimentares. Os resultados do trabalho efectuado poderão ser da máxima importância no definição de algumas pistas de evolução da estrutura da produção leiteira, muito em especial nas zonas do minifúndio, zonas onde, julgo, apenas uma 'revolução mental' que aponte para uma efectiva cooperação empresarial entre os produtores, poderá permitir ultrapassar os obstáculos, aparentemente insanáveis, que actualmente se apresentam.

Posto isto e porque o texto vai já excessivamente longo (e não é minha intenção que substitua os soporíferos), importa perceber quais as posições que no contexto comunitário Portugal deverá, em minha opinião, defender, qual a margem de manobra que um país como o nosso pode ter num sector em que aparentemente o nosso peso é muito diminuto e que cenários se poderão apresentar durante o segundo semestre do corrente ano, período que coincide com a presidência portuguesa da União Europeia

Assim e como julgo se depreenderá do referido atrás, estou convicto que o nosso país deverá defender, sem hesitações, a manutenção do sistema de quotas até 2015 e mesmo, na medida do possível, o prolongamento do sistema para lá dessa data.

Importante seria também - no caso do desmantelamento - adiar, tanto quanto possível e preferencialmente para depois de 2015 a implementação das medidas de transição rumo à total liberalização do sector. Na hipótese do desmantelamento será também importante defender a implementação de mecanismos de resgate/indemnização das quotas atribuídas aos produtores.

Considero ser essa, apesar dos riscos tácticos que eventualmente comporte, a forma mais eficaz de defender um conjunto de interesses básicos da fileira do leite nacional, como sejam o direito à manutenção de uma estrutura produtiva que permita, pelo menos, o abastecimento da nossa estrutura de transformação e o nosso mercado, o direito a alguma dignidade da actividade produtiva, visando a manutenção no activo de um número suficiente de explorações leiteiras e o direito à consolidação dos investimentos feitos no sector transformador, a rentabilização desse 'património' industrial e manutenção dos postos de trabalho associados.

Portugal não está isolado nesta luta pela manutenção do sistema de quotas. Países como a Finlândia e a Áustria já se declararam publicamente favoráveis ao prolongamento, para lá de 2015, deste regime. O governo francês, tido como claramente pró-quotas, poderá inflectir, com a eleição do presidente Sarkozy, algumas posições assumidas anteriormente. No entanto, nos meios agrícolas e agro-industriais, o novo líder francês é tido como um defensor da PAC e do meio rural, tendo recebido o apoio expresso de muitas organizações do sector.

No caso espanhol, tivemos a possibilidade de assistir in loco à reunião convocada pelas respectivas autoridades para definir a posição nacional nesta matéria - a Globaláctea - e verificamos, antes de mais, a dificuldade de obter consensos sobre matérias tão básicas quanto a da defesa ou não do sistema de quotas. Foi perfeitamente notória a rejeição do sistema por parte da indústria e as posições totalmente favoráveis ao seu prolongamento por parte da generalidade das organizações agrárias.

No caso de Itália, as mais recentes impressões colhidas referem que o respectivo executivo se mostrará favorável ao desmantelamento do sistema, a não ser que lhe seja atribuída quota adicional que lhes permita 'tapar' o diferencial que ano a ano se verifica entre a quota nacional e o volume de entregas dos seus produtores. Ou seja, não estão efectivamente contra o sistema, estão apenas contra o valor da quota que o país detém.

Os dois grandes pontos de interrogação desta equação verificam-se no caso da Alemanha e em relação ao grande grupo dos doze novos Estado-membro (com a Bulgária e Roménia já aqui incluídas). Em relação a estes últimos, é muito difícil prever que posição assumirão. Os contactos que mantemos com algumas das respectivas associações - em especial na Polónia, Rep. Checa, Hungria e estados bálticos - não nos deixam margem para grandes contagens de espingardas. No entanto, o baixo volume das quotas atribuídas a alguns desses países poderá predispô-los para uma posição favorável ao desmantelamento do sistema. Ao invés, esse desmantelamento tenderá a que a vantagem competitiva dos menores preços de leite nesses países rapidamente desapareça, até porque na sua grande maioria, os respectivos tecidos produtivos são compostos por uma enorme percentagem de microexplorações de eficiência mais do que duvidosa.

O caso alemão apresenta contornos ainda algo 'nebulosos', pois se as posições públicas do respectivo Ministro da Agricultura, Horst Seehofer, parecem estar claramente do lado do desmantelamento, as organizações representativas quer da produção, quer da transformação láctea, não surgem tão crentes quanto às virtualidades desta liberalização do sector.

De qualquer forma, mesmo que o resultado final seja o efectivo desmantelamento do sistema de quotas leiteiras a partir de 2015, parece claro que a existência de um bloco concertado de países que se manifestem em sentido distinto, no mínimo influenciará todo o processo de transição para o livre mercado, quer no sentido de um maior abrandamento daquele 'soft landing', quer no sentido de um maior cuidado com a monitorização dos equilíbrios do mercado lácteo.

Em linguagem futeboleira, "a melhor defesa é o ataque", pois se é verdade que a Comissária Fischer Boël teve o mérito (do ponto de vista das teses que defende) de conseguir que todo o sector à escala europeia esteja já a discutir os cenários de transição e o pós-quotas, como se houvesse já sido definitivamente decidido que o seu prolongamento não se efectivará, é também verdade que aos Estados-membro cabe desvalorizar essa pretensão e recentrar a discussão no SIM ou NÃO ao prolongamento do sistema de quotas. E a este nível, não nos parece que Portugal possa apenas colocar-se na sombra de posições de outros Estados-membro, esperando para ver o que pode ganhar, quando o que está em causa é o muito que poderá perder...

Em Setembro de 2006, tivemos, em Copenhaga, a oportunidade de ouvir da boca do chefe de Gabinete da Comissária Fischer Böel não apenas a sua cartilha de intenções, como também o cronograma relativo às próximas etapas que o processo seguiria. No entanto, a velocidade actual dos acontecimentos impede que se diga que se vai fazer uma qualquer coisa daqui a 18 meses ou dois anos... De imediato, as coisas começam a borbulhar, a construção de teorias multiplica-se, as universidades e os gabinetes de consultores têm aqui uma boa oportunidade de marcar pontos e a verdade é que os primeiros documentos relativos ao 'health check' deverão já estar disponíveis no início do semestre, coincidindo com o início da presidência portuguesa.

Provavelmente de forma contrária ao que seriam as expectativas do nosso Governo, o dossier Agricultura irá assumir um espaço muito relevante no semestre da nossa Presidência e bom seria que usássemos o 'suplemento' de influência que a presidência sempre confere para tentar defender a nossa dama. Bom seria também que fosse aproveitado o conhecimento que sobre este dossier foi sendo construído, dentro e fora da administração, não se caindo na tentação de elaborar nos corredores do Ministério uma posição nacional ao arrepio dos interesses do sector e do que vem sendo sucessivamente defendido pelas suas organizações mais representativas.

Um último reparo para afirmar que, apesar de tudo o que foi dito atrás, pouco ou nenhum interesse haverá na defesa das posições nacionais juntos das instâncias comunitárias se, em simultâneo, não se fizer 'inversão de marcha' nos principais estrangulamentos domésticos do sector:

  • se não se inverter a atitude política de apoio aos biocombustíveis a qualquer preço, não ponderando nem considerando o impacto de tal atitude sobre a estrutura de custos de todas as explorações agro-pecuárias;

  • se não se flexibilizar (o que é completamente distinto de facilitar) o processo de licenciamento das explorações, numa perspectiva de melhoria da qualidade da matéria-prima, de melhor adequação ao meio envolvente e de melhor ordenamento do território e não da burocratização de um acto administrativo ou da gestão de pequenos poderes entre as entidades envolvidas. Os produtores também são cidadãos e contribuintes, pelo que têm, obviamente, o direito de reclamar para si uma outra atenção e atitude de um Estado que parece mais preocupado em penalizá-los do que em criar condições (limitando os agora tão falados custos de contexto...) para que desenvolvam a sua actividade de forma condigna;

  • se não for reformulado o Plano de Desenvolvimento Rural, criando apoios proporcionados, direccionados e atraentes para os produtores de leite, parcela que, queremos crer, continua a ser considerada importante no seio do sector agrícola nacional e que deveria merecer uma outra atenção da parte de quem se senta nas cadeiras do poder.

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Pedro Pimentel
Secretário Geral
ANIL - Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios

Publicado em 21/05/2007

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