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OPINIÃO

Que margem de manobra para Portugal no dossier quotas leiteiras?


Pedro Pimentel

Como escrevia há pouco tempo num outro artigo, a fileira do leite em Portugal e muito especialmente a produção leiteira nacional está autenticamente enfiada numa camisa de sete varas - liberalização comercial internacional, desmantelamento das quotas, ecocondicionalidade, alimentação animal vs biocombustíveis, licenciamento das explorações, PDR, desligamento/RPU - que é essencial desmontar e despir.

Tenho também constatado, de forma crescente, que a forma como estas matérias é tratada é muitíssimo sensível, sendo muito ténue a linha que separa o acto de informar e de contribuir para a reflexão, por parte de quem nos lê ou escuta, da percepção de que, face a tantos constrangimentos e obstáculos, à desmotivação se poderá seguir o abandono.

Contudo e apesar disso, não posso deixar de considerar que qualquer uma das varas [sete] da 'nossa' camisa é suficiente, por si só, para nos causar 'uma carga de trabalhos' e, obviamente, a combinação de todas elas torna a situação - um sistema de múltiplas equações com múltiplas incógnitas - de elevada complexidade na sua teorização e na definição das eventuais pistas de solução.

Os principais impactos de cada um daqueles factores foram já inúmeras vezes enunciados, muito embora haja uma importante deficiência na sua não quantificação. Mesmo em termos internacionais, a maior parte dos estudos conhecidos geram, pelo menos no meu caso pessoal, muitas desconfianças quanto ao seu efectivo rigor, sendo que a maioria parece ser claramente construída para confirmar determinadas teorias ou posições.

De qualquer forma e de modo telegráfico, poderíamos lembrar que a liberalização que por certo sairá das negociações da OMC fará com que, em simultâneo, o mercado lácteo europeu fique mais exposto às importações provenientes das grandes potências lácteas da Oceânia e da América do Sul e que as exportações europeias, pela via do desmantelamento das restituições, sejam dificultadas

A ecocondicionalidade e o desligamento, em conjunto ou separadamente, poderão funcionar como um convite ao abandono da actividade leiteira (mais exigente do ponto de vista ambiental, com piores condições de trabalho,...) em detrimento de outras actividades agrícolas onde essas dificuldades sejam menos sentidas.

O autêntico 'boom' dos biocombustíveis está a gerar um rápido aumento dos custos das principais matérias-primas utilizadas na alimentação animal, com reflexos óbvios e imediatos nos respectivos custos de cedência às explorações. Além disso, a 'poeira' está ainda demasiado longe de ter assentado para que se perceba como e quando se obterá um novo equilíbrio e quais as suas consequências na estrutura de custos das explorações leiteiras...

Em relação ao autêntico sarilho em que, à boa maneira portuguesa, se converteu o dossier 'licenciamento', com exigências faraónicas ao nível dos investimentos das explorações, com a confrangedora confusão de competências que se gerou em relação a um diploma que (recorde-se) foi publicado em 2004 ou com a perda de 'tempos infinitos' porque as entidades envolvidas não se entendem em relação à divisão das receitas que o processo de licenciamento gerará, o que é que se pode dizer de forma séria??...

Também não é fácil tentar ser objectivo no comentário quando se analisa atentamente o Plano de Desenvolvimento Rural - que, lembre-se, é o que de mais próximo se elabora em relação ao que deve ser a Política do Estado para a Agricultura - verificando-se que à fileira do leite não é conferido o estatuto de prioritária e que em relação a soluções para as várias dificuldades que a produção leiteira enfrentará no quadro temporal do PDR se diz... NADA!!...

Apesar de tudo isto, a questão essencial parece ser nesta altura, a de conseguir, de alguma forma, quantificar o impacto que este conjunto de dificuldades poderá ter ao nível do incremento do abandono produtivo e de que forma esse abandono poderá condicionar o abastecimento do conjunto das unidades de transformação espalhadas no nosso país, colocando em causa a fileira do leite no seu todo.

Desde logo duas observações que julgo importantes neste ponto: uma primeira para recordar que nos últimos dez anos abandonaram a produção leiteira mais de 65 mil [!!!] dos cerca de 80 mil produtores registados em meados da década de noventa e tal não teve qualquer consequência (antes pelo contrário) no desenvolvimento da produção leiteira nacional, a qual cresceu 300 mil toneladas, não aumentando mais porque foi entretanto atingida a quota leiteira nacional e houve grande firmeza na forma como a disciplina de produção foi transmitida a todas as explorações.

Uma segunda para constatar que face à organização actual da nossa produção - no final da campanha de 2005/2006, 4.895 dos 14.031 produtores (34,9%) realizaram entregas individuais inferiores a 20.000 kg, sendo as respectivas entregas acumuladas de 33.937 toneladas num total de 1.935.220 toneladas (menos de 1,8%) - e mesmo que todos aqueles constrangimentos não existissem ou se verificassem em simultâneo, certamente muitos produtores iriam ainda abandonar o sector, embora, aparentemente, a respectiva produção/quota fosse facilmente absorvida pelos restantes produtores.

Por mera inferência estatística, se não considerássemos aqueles microprodutores (e as suas entregas) - cujo peso percentual não tem paralelo em nenhum dos nossos parceiros da UE-15 - a dimensão média das nossas explorações subiria dos 135.000 kg de entregas para os quase 210.000 kg, o que nos aproximaria de forma clara dos valores de referência da 'velha' Europa.

Assim, uma primeira proposta passa pela importância de monitorizar os contornos de que se revestirá o abandono nas próximas campanhas, para que se possa concluir, de maneira efectiva, de que forma as 'sete varas' têm impacto nas saídas do sector e que tipo de medidas adoptar na tentativa de obviar às dificuldades que daí resultarão.

Mas, voltando à questão de fundo das quotas leiteiras, referência ao facto de o Leite ser o único sector que permanece 'não reformado'; de, no seio da UE, parecer inequívoca uma ameaça genérica sobre todas as "quotas de produção"; de estar marcado para 2008 o denominado Health Check [uma nova avaliação intercalar] da reforma da PAC decidida em 2003, sendo que no mesmo quadro temporal serão revistas as Perspectivas Financeiras de médio/longo prazo.

Referência ainda a estarem a ser desenvolvidos trabalhos visando a criação de uma OCM única, o que motivará uma óbvia perda de preponderância dos diversos sectores, e o leite não será, por certo, excepção. Finalmente, é sabido que a actual Comissão Europeia cessa o seu mandato em 2009 e, tudo indica, não deverá ser reconduzida em funções, pelo que não é de excluir a vontade dos seus elementos em deixarem a 'sua' marca.

Com relação à OCM-Leite propriamente dita, lembre-se que a Reforma 2003 definiu como quadro de vigência do sistema de quotas a campanha 2014/15, foram reduzidos os preços de intervenção e criadas limitações tempo/quantidade para a intervenção da manteiga, foi criado o prémio aos produtos lácteos, foram introduzidos mecanismos de redução, quando não mesmo de desmantelamento de várias outras 'ferramentas' da OCM.

Olhando, agora, de forma mais atenta para o Sistema de Quotas, parece-me linear constatar que, desde a sua implementação, muito auxiliou à adequação da oferta à procura, contribuindo quer para a desaparição dos volumosos stocks de manteiga e leite em pó quer para uma razoável estabilidade dos preços e sustentabilidade dos rendimentos, criando estabilidade e incentivando investimentos ao nível tanto da produção como da indústria. Possibilitou a redução dos efectivos compensada por ganhos de produtividade e permitiu a manutenção e mesmo o desenvolvimento da produção leiteira na totalidade dos países da UE.

No entanto... permitiu também a cristalização de situações de desequilíbrio no interior da própria UE, com a existência de países em que a produção é altamente excedentária em relação ao consumo dos seus mercados nacionais, casos da Holanda, da Dinamarca ou da Irlanda, enquanto outros, como a Espanha, a Itália ou a Grécia são fortemente deficitários. Por outro lado, deve ser dada grande atenção à 'avareza' com que foram atribuídas as quotas aos novos Estados-membro, no que vai constituir-se, seguramente, como mais um factor de tensão sobre o sistema de quotas.

Penso ser relativamente fácil concluir que o desmantelamento do sistema de quotas, a verificar-se, não será a fonte de todos os males, nem o factor único que contribuirá para o desmoronamento da organização actual do sector lácteo, tal como a conhecemos e integramos. Mas até pelo valor simbólico e político que possui e pelo que ao desaparecer deixa de justificar, esse desmantelamento poderá ser a 'gota que faz transbordar o copo', justificando e criando condições para uma excessiva liberalização que aparentemente a poucos interessa.

Em cada reforma da PAC a continuidade das quotas leiteiras tem sido questionada. Os opositores têm sido quase sempre os mesmos: 'exportadores' e 'espoliados', sendo que tem o eixo franco-alemão o mais forte garante da respectiva manutenção. Mas, a Alemanha de Angela Merkel parece ter caído definitivamente para o lado dos opositores do sistema, criando um desequilíbrio (ou um novo equilíbrio) entre as posições em confronto a que se junta a forma como este dossier será encarado pelos novos Estados-membro.

As démarches da Comissão Europeia e de certos Estados-membro (em especial a Holanda e Dinamarca) visam então realmente o quê? Desmantelar já o sistema de quotas ou garantir tão depressa quanto possível (ainda em 2008) o desmantelamento do sistema em 2015? E nesta última opção, há referências a uma 'aterragem suave' na perspectiva de 2015, mas essa aterragem suave ocorrerá daqui até 2015 ou terá lugar apenas no pós 2015?

Face às informações disponíveis, mantenho, como já o disse em várias ocasiões anteriores, que se tentará garantir, sem hipótese de renegociação posterior, o desmantelamento do sistema de quotas em 2015, mas que também tudo será feito para antecipar o período de transição, ou seja a tal 'aterragem suave', que começará a produzir efeitos logo em 2009 e prolongar-se-à até 2015.

Continuo a ter muitas dúvidas sobre a 'suavidade' dessa aterragem e suas consequências imediatas no equilíbrio de mercado!!... Algumas das possibilidades equacionadas passam, por exemplo, pela redução substancial do valor da multa do regime de Imposição Suplementar; pelo aumento gradual percentual das quotas dos vários Estados-membro; pela possibilidade de transacção de quotas entre produtores de diferentes países e/ou pela compensação das ultrapassagens nacionais de quotas entre os vários Estados-membro. Estas possibilidades poderiam ser accionadas de forma isolada ou conjugada.

A concretizarem-se essas propostas - a mais provável das quais a combinação do aumento gradual das quotas nacionais com a redução do valor das multas - e não obstante a respectiva aparente 'bondade', parecem ser óbvias várias consequências, como sejam o 'relaxar' da disciplina de produção; o aumento substancial dessa mesma produção; a rápida criação de excedentes; a desvalorização do preço do leite; a depreciação do valor da quota; o fomento do abandono da produção e a acentuação rápida dos diferenciais de competitividade entre regiões, entre países...

Qualquer aprendiz de economista não esquece, desde a primeira aula que frequenta, que a mais salutar forma de organização de uma determinada actividade passa pelo livre funcionamento do mercado. E em termos ideais o raciocínio é simples: para quê esbanjar recursos na produção de um determinado bem se outros o produzem mais barato e se podemos aplicar alternativamente a parcela diferencial entre aquilo que pagaríamos por esse bem e o que nos custaria produzi-lo.

A eterna tentação é pensar que não são competitivos aqueles que o não querem ser. Um bom exemplo é ouvir e ler o que se escreve em relação à posição dos empresários portugueses do sector têxtil face ao 'perigo' das importações provenientes da China. ...Que não, que não podemos fechar as fronteiras, que temos que deixar entrar no nosso mercado os produtos vindos dos países mais pobres, que os empresários não se prepararam para o perigo que todos sabiam que vinha aí, que o têxtil é um sector tradicional e de empresas familiares e pouco preparadas, que... que... que... No entanto, poucos são os que lembram em que condições (quantas horas por dia, que salários, que férias, que segurança social) esses produtos são produzidos na China, que referem as obrigações que as nossas empresas têm que cumprir e que as suas congéneres chinesas nunca ouviram falar, que lembram as economias de escala que podemos ter se o nosso mercado natural é de 10 milhões de habitantes e o deles é mais de cem vezes maior. »»»

Continua

Pedro Pimentel
Secretário Geral
ANIL - Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios

Publicado em 21/05/2007

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