|
Podia
ter chamado "leite a arrefecer" a este artigo, porque
retratava o desânimo de muitos produtores de leite, mas preferi um
título mais "quente", a condizer um sector em
"ebulição" e a lembrar uma frase que ficou célebre em
anteriores debates sobre o preço pago ao produtor: "O leite
vai subir, mas é no tacho, quando ferver" (e depois subiu
mesmo).
Por
estes dias, a produção de leite em Portugal continental vive entre
a angústia e a ebulição, entre as dúvidas e as dívidas. Os
sinais políticos não convidam à produção. O governo não
considerou o sector estratégico no âmbito do PDR para o
continente, o que significa menos apoios ao investimento no sector,
em comparação com outras fileiras de produção e pode provocar
uma situação de concorrência desleal por parte dos Açores (onde
o sector é, naturalmente, estratégico) ou da vizinha Espanha.
Tenha-se
também em conta as perspectivas de abertura do mercado Europeu, o
fim das ajudas à exportação, o fim "anunciado" das
quotas leiteiras, tudo a prometer baixas no preço do leite a médio
prazo.
Considere-se,
por último, que as "ajudas" comunitárias ao preço do
leite, que antigamente eram incluídas no pagamento mensal da
indústria à produção, são agora entregues directamente ao
produtor, mas só no final do ano, ou no ano seguinte, limitadas à
quota detida, condicionadas por um conjunto de regras, desligadas da
produção a partir de 31de Março próximo (integrando-se nos
pagamentos do RPU) e arriscando-se a ver 20% do seu valor cortado no
âmbito da "modulação voluntária". Posso compreender
que a indústria tenha baixado o preço do leite ao produtor, porque
deixou de receber as ajudas que são agora entregues directamente no
"prémio aos produtos lácteos". Mas a indústria também
tem de perceber que esse prémio é temporário, de adaptação e o
objectivo do seu desligamento é, precisamente, deixar funcionar o
mercado. Assim, nenhum produtor de leite, ao planear o futuro, pode
entrar com esse valor como receita prevista. Se o preço
efectivamente pago não for rentável, vai abandonar a produção. E
vai abandonar, obviamente, antes que seja obrigatório tratar do
licenciamento das explorações e efectuar investimentos
relacionados de requalificação ambiental.
No
debate que se vai fazendo, tem-se argumentado que o preço pago em
Portugal ainda é superior à média comunitária. Será possível
produzir em Portugal ao mesmo preço que no Norte da Europa?
No
nosso país, a produção de leite desenvolveu-se em regiões de
minifúndio, com parcelas pequenas e dispersas. A terra, apesar de
fértil, é pouca, e tem custo elevado ao comprar, alugar, mobilizar
ou regar (agora sem o subsídio da electricidade verde). Não
havendo condições de pastagem, produz-se forragem (milho silagem)
também com custos elevados, e complementa-se a alimentação das
vacas com rações compradas. Nos últimos meses, o preço da
ração subiu a pique, devido à procura de cereais para o fabrico
de biocombustíveis. Isto é muito preocupante, porque a ração é
o custo mais importante de uma exploração leiteira, além do
investimento com instalações e animais (cujo preço também
atingiu níveis históricos, por causa da língua azul).
Conseguiremos nestas condições "espremer" ainda mais a
gestão das explorações leiteiras, para sermos competitivos face
ao Norte da Europa? E depois baixamos "mais um bocadinho"
para competir com os países de Leste, e depois com os Estados
Unidos, e depois com a Nova Zelândia? É este o caminho para o
"futuro" da produção de leite em Portugal?
Em
vez de continuarmos fixados nos preços baixos e dependentes de
marcas brancas, porque não seguir os exemplos de quem tem preços
mais altos ao produtor? Porque não apostar em queijos, iogurtes,
etc, produtos diferentes com alto valor acrescentado?
Um
olhar superficial para a produção de leite, baseado na dinâmica
industrial do sector ou nos números de preenchimento da quota
nacional, pode levar a pensar que está tudo bem e que a realidade
desmente as dúvidas que referi atrás. Um olhar mais atento, um
inquérito às cooperativas, às fábricas de rações e outras
empresas que fornecem os agricultores, mostrará que as dívidas
são cada vez mais, sobretudo nas explorações aparentemente mais
dinâmicas, mas cujo aumento de produção foi feito à custa de
investimentos elevados em animais, quotas, instalações, ou
equipamentos. E essas explorações, esses produtores de leite, não
vão desistir em Abril, porque quem tem dívidas não pode ter
dúvidas. Esses estão presos e vão continuar, até que melhores
dias venham ou a falência seja inevitável.
Pensando
no futuro a médio prazo, seria bom que o Governo olhasse com mais
profundidade o sector, quebrasse o silêncio e definisse com os
parceiros a posição portuguesa sobre o futuro das quotas
leiteiras. Em conjunto com a Indústria, também pode e deve ajudar
a melhorar a gestão das explorações agrícolas, até onde for
possível, ao mesmo tempo que se inova na transformação para
garantir melhores preços, como referi atrás.
Contudo,
esses remédios de longo prazo não evitam uma intervenção urgente
com "oxigénio" para aliviar a "falta de ar" que
a produção sente actualmente. Falando claro, como dinheiro é o
que falta, talvez o governo deva começar a pensar na antecipação
do prémio aos produtos lácteos. E como o Estado demora a pensar e
ainda mais a pagar, a indústria terá de abrir rapidamente os
cordões à bolsa e arranjar mais uns trocos para subir o preço do
leite ao produtor, antes que a produção desapareça. A
"distribuição" não deixa? Os produtores já levaram
vacas para a porta do supermercado, já distribuíram leite na rua,
podem voltar a fazê-lo. O que não podem é apertar mais o cinto.
Está no último furo...
19.03.2007
Carlos
Neves
Jovem Agricultor
Publicado
em 19/03/2007
|