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O
efeito de estufa, o aquecimento global e as suas consequências,
são temas que assiduamente marcam presença nos serviços
noticiosos que diariamente invadem os lares de todo o Mundo.
Hoje,
é comummente aceite, que é a elevada concentração de gazes
nocivos na atmosfera a principal causa destes problemas e das suas
consequências. De acordo com a comunidade científica, a seca que
em 2005 assolou o nosso País e que ocorrerá com crescente
frequência, é uma consequência directa do aquecimento global.
É
à elevada concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera,
que é atribuída a maior fatia de responsabilidade pelo aquecimento
global e respectivas consequências.
Estas
preocupações são antigas, e foi com base nestas que nos últimos
anos a maioria das nações industrializadas ratificaram o protocolo
de Kyoto, comprometendo-se assim a diminuir as suas emissões em
cerca de 5% até 2012.
Este
protocolo, originou a criação de um mercado de "créditos de
carbono", em que todas as entidades emissoras de CO2
(e outros gazes nocivos transformados em equivalentes de CO2) para a
atmosfera serão devedoras ou credoras, consoante aumentem ou
diminuam as suas emissões, tendo como referência o ano base
(1997).
Basicamente,
existem duas estratégias para diminuir a concentração de carbono
atmosférico:
1)
Diminuir as emissões
2)
Reter o carbono nos seus reservatórios naturais
Para
diminuir as emissões, as entidades emissoras terão duas opções:
a)
Diminuir a sua actividade (implica diminuição da produção)
b)
Aumentar a eficiência energética de produção (implica
investigação, desenvolvimento tecnológico e avultados
investimentos)
Com
o mercado de créditos em funcionamento, as entidades que não
consigam diminuir o nível das suas emissões, poderão comprar créditos
de carbono ás entidades credoras.
Fig.
1
Os
reservatórios naturais do Carbono são os indicados na fig. 1
(oceanos 39000 Pg, biomassa terrestre 500Pg, atmosfera 760 Pg, e
Matéria orgânica do Solo 2000 Pg).
Por
se encontrarem em permanente equilíbrio (o Carbono que retêm é
aproximadamente equivalente ao que libertam), os oceanos e a
biomassa terrestre, não poderão ser parte da equação do nosso
problema. Restam-nos os solos e a atmosfera, sendo que o objectivo
será diminuir a quantidade de C da atmosfera e portanto aumentar a
retenção no reservatório que é o solo.
As
plantas, como seres autotróficos que são, utilizam o dióxido de
carbono atmosférico (juntamente com luz e água), no processo de
fotossíntese que todos conhecemos.
Assim,
à primeira vista, poderíamos pensar que a agricultura poderá ser
encarada como uma actividade retentora de C atmosférico e
consequentemente credora de carbono para outras actividades. Tal
não se verifica. De facto, a agricultura é vista como uma das
actividades que mais contribui para aumento de origem antropogénica
do efeito de estufa.
Em
sistemas de agricultura convencional, quando se procede à colheita,
o carbono retido pelas plantas é retirado da parcela agrícola
quase na sua totalidade. O restante perde-se para a atmosfera, tanto
mais rapidamente quanto mais intensa for a mobilização do solo.
Mobilizações intensivas do solo, são responsáveis por uma perda
substancial do C do solo, atingindo entre valores entre os 30 a 50%.
O
carbono atmosférico é armazenado no solo principalmente sob a
forma de Matéria Orgânica. Todos nós sabemos que o teor em M.O.
do solo tem diminuído de forma acentuada com a intensificação dos
sistemas de agriculturas praticados. Tal é demonstrativo a
quantidade de carbono libertado é superior à quantidade de carbono
retido.
Já
em sistemas de agricultura de conservação (sementeira
directa/mobilização na zona/não mobilização da entrelinha de
culturas perenes), o aumento do teor de M.O. do solo pode facilmente
atingir valores superiores a 1 ton/ha/ano. Por outro lado, ao
diminuir o tráfego de máquinas nas parcelas agrícolas, diminui-se
consequentemente o nível de emissões de CO2 para a atmosfera.
Assim,
ao adoptar um sistema de agricultura de conservação em detrimento
de um sistema de agricultura convencional, não só diminuímos as
emissões de C para a atmosfera, com também alimentamos o
reservatório natural de C que é o solo.
Segundo
um estudo apresentado na OCDE 1,
técnicas utilizadas em sistemas de agricultura de conservação,
como a sementeira directa, têm potencial para aumentar o stock de C
no solo em valores que rondam os 1.4 ton/ha/ano. Se a este valor
adicionarmos aquele que não é emitido em virtude da menor
utilização de máquinas com motores de combustão, ficamos com uma
ideia do enorme contributo destes agricultores para a
concretização dos objectivos propostos pelo Protocolo de Kyoto.
Estima-se que para a Europa dos 15 (antes do alargamento), o
potencial de redução de CO2 atmosférico é de cerca de 135 Mt
/ano.
Este,
é mais um serviço ambiental que os agricultores prestam à
comunidade, tal contributo terá que ser obrigatoriamente
reconhecido. Já hoje, a tonelada de carbono tem um valor de mercado
bem definido. Os agricultores portugueses, não podem e não devem
deixar que mais uma vez haja terceiros que se apropriem do que é
seu por direito.
Temos
conhecimento que noutros países, que curiosamente não ratificaram
o Protocolo de Kyoto, já se "negociou" carbono entre as
empresas privadas e os agricultores que praticantes de agricultura
de conservação.
José
Freire
APOSOLO
– Associação Portuguesa de Mobilização de Conservação do
Solo
(1)
Soil Organic Carbon in the Context of the European Climate Change
Programme
Andreas Gumber
European Commission
Directorate General Agriculture
Publicado
em 30/03/2006
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