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“Árvore
valiosíssima, e que nenhuma outra resinosa ou
folhosa poderá substituir em determinadas condições”
Vieira
da Natividade (1963) |
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A
sua origem alimentou algumas discussões. Introduzida ou
originária, o que é facto é que ela se instalou e progrediu
enormemente, tendo o seu pico de expansão pelos anos setenta, que
de acordo com o padrão de ocupação florestal da época
representava mais de 40% da área florestal.
O
século XX foi o grande período da sua expansão. Os grandes
programas de arborização promovidos pelo Estado estiveram na
raiz do seu crescimento. As sua características fizeram desta
espécie o grande e quase único meio de arborização das dunas
litorais e baldios serranos. As suas características de
rusticidade e plasticidade, de boa adaptação a solos muito
degradados por séculos de uso intensivo, permitiram-lhe
expandir-se um pouco por quase todo o território, muito para
além do que é a área óptima para o seu desenvolvimento.
Os
proprietários particulares adoptaram-na para ocupar muitos dos
seus maninhos e montes, onde durante séculos vegetaram carvalhos
e outras espécies que o pastoreio intensivo, o corte das lenhas e
as roças de mato acabaram por fazer desaparecer.
Os
produtos do pinhal permitiram satisfazer algumas das necessidades
básicas das famílias camponesas tradicionais. Foi durante
décadas o grande capital de reserva com que as comunidades rurais
puderam acorrer a muitas das suas despesas extraordinárias. Das
lenhas, aos toros para entivação das minas, passando pela
madeira, pelo carvão e pela resina, o pinhal teve uma
importância fundamental na economia rural do Centro e Norte do
país.
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A
partir dos anos setenta, o êxodo rural e o ermamento crescente do
interior do país, vieram alterar radicalmente aquilo que tinha
sido até ali o modo de vida rural. Espécie florestal intimamente
ligada à pequena propriedade, fragmentada e dispersa, o pinhal e
a sua economia são um testemunho das grandes mudanças operadas
na sociedade rural portuguesa, com o abandono dos campos e a
procura, fora das suas comunidades, de formas de vida mais dignas
para si e para os seus. As consequências para o pinhal são
diversas e vão desde o abandono, típico dos espaços rurais
profundos, até à sua substituição pelo eucalipto
designadamente em espaços rurais intermédios onde as condições
sócio-económicas e edafo-climáticas, permitem soluções
florestais mais intensivas.
As
mudanças iniciadas na década de sessenta do século passado,
conduziram os espaços rurais a um circulo vicioso que se auto
alimenta, num processo onde o declínio demográfico é a face
mais visível do problema, alterando práticas ancestrais de
produção de energia e da sua reconversão por processos
naturais. A diminuição da intensidade do uso da floresta
traduziu-se numa enorme acumulação da maior parte da biomassa
produzida, criando grandes massas térmicas prontas a explodir.
A
utilização mais tradicional dos pinhais na pequena propriedade,
centrada na exploração dos matos, das lenhas, da resina, da
madeira para uso próprio e como "mealheiro", num quadro
de "não gestão", tem vindo a dar alguns sinais, ainda
que ténues, num processo com imensos escolhos, de uma nova
lógica mais virada para o mercado, preocupada com os problemas da
produtividade, da qualidade dos produtos, fazendo apelo aos novos
saberes e tecnologias hoje disponíveis.
Mudanças
previsivelmente lentas estas, face aos condicionalismo
intrínsecos a própria espécie, mas também ao enquadramento
sócio-económico onde este recurso florestal e uma realidade
presente e onde apresenta maiores potenciais de crescimento.
Estão,
desde há muito tempo, identificados os grande obstáculos que
impedem o desenvolvimento harmonioso da fileira do pinheiro bravo,
que é uma das duas mais importantes espécies madeireiras, sendo
a sua produção destinada maioritariamente às industrias de
serração.
Do
lado da produção, a ausência de uma gestão activa deste
recurso vem sendo apontado como a grande questão que tem estado
na origem das baixas produtividades e produções, da degradação
do seu património genético através de modalidades de cortes que
privilegiam os piores exemplares como garantes da continuidade dos
povoamentos, através de um processo de selecção negativo, com
consequências desastrosas para as qualidades tecnológicas do
material produzido.
A
quase absoluta ausência de praticas silvícolas, limpezas,
desbastes desrramações, fertilizações, etc. torna o nosso
património pinicola um meio excelente para a propagação dos
incêndios florestais, para cuja dimensão tem dado infelizmente
um enormíssimo contributo.
A
tendência que tem vindo a desenhar-se nos últimos vinte anos de
diminuição da área ocupada e as dificuldades crescentes em
assegurar a satisfação das necessidades da industria, traduz bem
o contexto social, económico e fundiário extremamente
desfavorável em que a nossa principal espécie resinosa tem
sabido resistir e sobreviver, e a muito pouca atenção que tem
tido por parte dos seus maiores utilizadores. Quase se pode
afirmar que a sua presença se faz contra tudo e contra todos,
mesmo naqueles casos em que a opção conscientemente assumida por
ela se deveu às elevadas ajudas públicas.
Não
basta o reconhecimento generalizado de que as florestas e os
espaços florestais e a panóplia de actividades associadas
deverão ter um papel estratégico, no desenvolvimento sustentado
do nosso mundo rural, designadamente para aquelas regiões social
e economicamente deprimidas, onde tantas vezes a floresta é o
grande recurso disponível. É urgente o reforço de medidas mais
integradas que abram caminho a uma maior e mais consistente
cooperação inter-institucional, publica e privada.
Por
tudo o que ficou dito, será ainda possível uma mudança
qualitativa que aproveite as imensas potencialidades desta
essência florestal?
A
resposta não poderá deixar de ser indubitavelmente positiva,
desde que sejam tomadas as decisões mais acertadas, aceites
alguns pressupostos económicos, sociais, fundiários e culturais,
intrinsecamente ligados a esta cultura florestal, e ter plena
consciência de que as mudanças só serão operadas a longo
prazo. É possível e necessária uma política de maior atenção
a esta espécie absolutamente indispensável para o
desenvolvimento e sustentabilidade dos espaços rurais.
Desde
logo, reafirmar o associativismo como o elemento condutor do
progresso possível em ambientes rurais parece ser
inquestionável.
De
facto, a transferência para organizações, profissionalmente
cada vez mais estruturadas, as actividades de ordenamento e
gestão, no quadro de uma silvicultura multifuncional,
racionalizando e tornando mais eficientes as diversas operações
florestais, melhorando a qualidade do lenho e organizando as
vendas de produtos florestais através de uma política comercial
mais agressiva e a prevenção dos incêndios, é uma das vias que
deve ser privilegiada no âmbito do desenvolvimento do sector
florestal privado.
Paralelamente,
desenvolver políticas públicas de apoio ao reagrupamento da
propriedade, à aplicação de critérios de gestão sustentável
e certificação dos produtos florestais, ao melhoramento dos
materiais de reprodução, em ordem à obtenção de ganhos de
produtividade que permitam, em prazo razoável, aumentar as
produções unitárias e os rendimentos dos proprietários.
É
preciso encorajar os empresários para o desenvolvimento das
condições que possam concorrer para o aumento da competitividade
de toda a fileira da madeira de pinho, incluindo a exploração,
transformação e comercialização de produtos com maior valor
acrescentado.
Com
efeito, a competitividade global desta fileira está intimamente
ligada à capacidade tecnológica e de inovação da industria de
serração, por onde passa em grande parte a matéria prima com
origem no pinheiro bravo, infelizmente, ainda, fornecendo produtos
de baixo valor acrescentado, o que também é, convém dizê-lo,
devido à heterogeneidade e aprovisionamento irregular do material
lenhoso.
Enfim,
é preciso transformar em realidades as potencialidades
identificadas, mas para se atingir tal desiderato é fundamental
operar uma nova atitude em todos os intervenientes, activamente
ligados aos grandes óbices ao desenvolvimento sustentável do
património pinícola.
Coimbra,
28 de Outubro de 2002
Luís
Pinheiro
Eng.º
Silvicultor
Publicado
em 02-11-2002
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