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6. Injustiças da PAC
Os
contribuintes dos quinze da União pagam cerca de 300 euros por ano no
pressuposto de que essa contribuição fosse para subsidiar 5% da população
ligada à agricultura, mas na realidade o que acontece é que só uma percentagem
ínfima de grandes agricultores, os ligados às produções subsidiadas, é que
ficam com a quase totalidade das contribuições.
Há um estudo
oficial do começo dos anos 90 que referia que 20% dos agricultores arrecadavam
80% dos subsídios. Hoje, infelizmente, a situação ainda é muito mais injusta,
dada a grande concentração de subsídios, a qual, desde 1993, isto é após a
incrível reforma da PAC, se faz na produção de cereais, que passaram de 31% do
volume de subsídios absorvidos do Feoga-Garantia para 47%.
Era
importante exigir à Comissão a actualização do estudo do começo dos anos 90,
que a fará chegar à conclusão de que cerca de 10% de agricultores privilegiados
recebem aproximadamente 80% dos subsídios do Feoga-Garantia.
Esta
profunda injustiça indigna-me e eis a razão por que, desde que sou Deputado
Europeu, há seis anos, me recuso a votar o orçamento e todos os anos sou
obrigado a ir ao Grupo Socialista e à Comissão da Agricultura protestar contra
ela.
As
modulações de 20% nos subsídios, permitidas mas não obrigatórias na Agenda 2000
e sem a imposição de qualquer tecto máximo, tornam-se irrelevantes na
redistribuição e na prática não amenizam a injustiça.
Mas o
chocante, o que indigna é o comportamento do Conselho Agrícola e a visão
tacanha e lobysta que tem do sector.
Apesar de
irrelevantes, as modulações eram um sinal, mas só a França e Portugal as vão pôr em prática.
Há nesta
matéria de encobrimento das injustiças e de irresponsabilidade política uma
enorme opacidade institucional.
Há muito que
peço à Comissão, sem o conseguir, a informação do valor dos subsídios dos 100
maiores beneficiários de cada Estado-Membro. Tal informação, que há muito
pretendo e a que como Deputado tenho direito, é-me sonegada, porque ela seria
fatal para o desmascaramento das profundas injustiças da PAC.
Contudo,
posso afirmar, sem poder ser desmentido, que a União oferece quase metade do
seu orçamento a menos de 1% dos cidadãos mais ricos.
Não conheço
mais nenhuma instituição democrática no mundo que trate tão bem os ricos
e os poderosos como a União.
7. Evolução das despesas do Feoga-Garantia
O suporte
financeiro de toda a distribuição de subsídios para a agricultura é o
Feoga-Garantia, o qual absorve cerca de 48% de todo o orçamento comunitário.
Ora, os
aumentos de dotação que desde 1993, após a incrível e vergonhosa reforma de
1992, têm ocorrido destinam-se exclusivamente a subsidiar os cereais.
Em 1993, o
Feoga-Garantia era dotado com 34.591 milhões de euros, recebendo os cereais
10.609 milhões de euros de subsídios.
No ano 2000,
a dotação financeira atingia 41.493 milhões de euros e para os cereais foram
canalizados 16.641 milhões de euros de subsídios.
Isto é, o
aumento nos sete anos do Feoga-Garantia foi de 6.902 milhões de euros e o
aumento de subsídios para os cereais foi de 6.032 milhões de euros.
É outro
escândalo inaceitável, a União demitiu-se da sua função institucional de
dirigir uma política comum da sua responsabilidade para se transformar num
mecenas intolerável dos cereais, que, ainda por cima, são uma produção
excedentária, desertificadora, representam somente 10% da produção agrícola
comunitária e cujas explorações pertencem aos maiores senhores da terra.
Exigir uma nova PAC com novos objectivos
O
alargamento da União, a rebelião dos consumidores e ambientalistas e as
negociações no quadro da Organização Mundial do Comércio são ingredientes mais
do que suficientes para obrigar a uma reflexão e criar a esperança de uma nova
PAC.
A actividade
agrícola não diz hoje respeito somente aos agricultores, ela tem também muito a
ver com a defesa da saúde pública, com a preservação dos recursos naturais e
com o ordenamento do espaço rural.
A evolução
sustentada do sector exige um pacto de confiança entre agricultores,
consumidores e ambientalistas.
Esse pacto
passa por profundas mudanças nas Instituições Comunitárias, de modo a retirar
poderes aos lobbies de interesses instalados no Conselho, na Comissão e no
Parlamento, possibilitando assim a discussão orientada para novas políticas e
não para a defesa de interesses instalados, muitos deles ilegítimos.
Os subsídios
devem ser utilizados como incentivos políticos aos objectivos prioritários e ao
fomento da tal agricultura multifuncional de que tanto falam, mas que a PAC
combate.
Em minha
opinião, esses objectivos que defendo desde que cheguei ao Parlamento Europeu
são : fomentar a qualidade e segurança alimentar, preservar os recursos
naturais, travar a desertificação rural, diversificar a cadeia alimentar e
promover o auto-abastecimento alimentar da Comunidade.
A qualidade,
a segurança alimentar e a preservação dos recursos naturais estão muito ligadas
às práticas agrícolas utilizadas na produção.
Há práticas
agrícolas altamente recomendáveis e outras severamente condenáveis.
Por exemplo,
a intensificação ou a extensificação da produção são práticas opostas, tanto na
pecuária como na produção vegetal.
Outro
exemplo é a utilização maciça de fertilizantes, pesticidas, herbicidas,
antibióticos, etc., os quais provocam aumentos de produção que não compensam os
prejuízos colectivos de que todos somos vítimas.
A nova PAC
deveria somente subsidiar a aplicação na produção de um código de boas
práticas agrícolas nascido da negociação do tal pacto de confiança entre
consumidores, agricultores e ambientalistas.
Deveria
ainda defender intransigentemente a empresa agrícola familiar com um prémio de
manutenção.
A empresa
agrícola familiar está nas tradições históricas de toda a Europa e é a raiz
gastronómica e cultural de muitos povos da União.
A nova PAC
deveria conferir-lhe um estatuto de benefícios muito especial.
É
fundamental também integrar e incentivar a diversificação da cadeia alimentar,
declarando guerra à sua massificação.
A
diversificação tem a ver com a cultura, com a biodiversidade, com os hábitos
gastronómicos ancestrais e com a defesa de riquezas alimentares de valor incalculável,
específicas de muitas regiões da União.
A nova PAC
deve voltar-se para o auto-abastecimento, procurando manter sempre a
independência alimentar da União, acabando com todos os subsídios à exportação.
Organização Mundial do Comércio
A implementação
de uma nova PAC baseada na defesa da qualidade e segurança alimentar, na
preservação de recursos naturais, no combate à desertificação rural, na
diversificação e independência alimentar da União exige novas posturas na
discussão no seio da O.M.C.
As
exportações alimentares da União são insignificantes em relação ao valor global
da produção, pelo que a preocupação não é abrir mercados, mas sim, preservar o
modelo europeu.
Mais
liberalização no sector agrícola corresponde sempre a mais produtivismo.
Mais
produtivismo é sinónimo de pior qualidade e segurança alimentar, mais agressões
ambientais, mais desertificação rural e mais massificação da cadeia alimentar,
isto é, o contrário do que se pretende para a evolução sustentada e
multifuncional para o sector.
O modelo
defendido para a nova PAC não visa a produção nem a competição externa.
A base da
negociação deve ser o que exigimos aos nossos agricultores, é o que devemos
exigir aos nossos parceiros comerciais.
Feoga-Orientação
A mudança
para uma nova PAC obriga a que o fundo de suporte ao investimento no sector
seja reorientado para os novos objectivos.
O
melhoramento da qualidade e segurança alimentar, o fomento das produções
regionais e a sua industrialização familiar, a defesa da pequena indústria que
contribua para a diversificação, etc., etc. devem ser assumidos como grandes
objectivos.
Nota Final
Após decisão
da formação de um grupo de trabalho alargado no seio do Grupo Socialista do
Parlamento Europeu para reflectir sobre a reforma da PAC, que eu efusivamente
saudei, porque há muito o reclamava, e sendo eu conhecido pela militância
activa contra esta política que me indigna, senti-me na obrigação de contribuir
por escrito com algumas das minhas reflexões.
Para os meus
Colegas Deputados
Europeus, da Comissão de Agricultura é a repetição de um
discurso ouvido durante seis anos, para os outros, é uma carta aberta com uma
modesta contribuição que, espero, os ajude a reflectir e a indignarem-se.