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Dossier:  

 

UM NOVO RUMO PARA A AGRICULTURA EUROPEIA É URGENTE E INDISPENSÁVEL

Uma nova Política Agrícola Comum  é hoje, como nunca, absolutamente indispensável. Em Portugal temos muitas razões para  defender alterações profundas. Mas a necessidade de uma outra PAC sente-se também noutros Estados-Membros da União Europeia.

Tal facto decorre das seguintes constatações:

·        No início dos anos 90, 20% dos agricultores recebiam 80% dos subsídios. Hoje, 10% deverão receber semelhante montante.

·        Na presente situação verifica-se que Portugal recebe 1,9% das ajudas directas, quando, por exemplo, a França recebe 24,5, a Alemanha 16,3 e a Espanha 14,3%.

·        O fomento desenfreado do produtivismo provocou situações de descontrole e está na origem de muitas incertezas e  angústias,  quer na perspectiva dos agricultores quer na dos consumidores.  BSE, febre aftosa, peste suína, ovos com dioxinas, carne com hormonas ou com antibióticos estão na base de um certo pesadelo que hoje se vive.

Perante este quadro e numa análise cuidada dos mecanismos da actual PAC, pode muito bem afirmar-se que ela é iníqua, ineficiente e anti-coesão.

É iníqua, porque feita à medida dos seis países fundadores da CEE, atribuindo apoios com base em critérios desajustados, como por exemplo o da produtividade histórica. Na verdade, provoca situações de desigualdade e injustiça entre países e entre sectores. É ineficiente, porque conduz à produção de bens, muitas vezes excedentários e sem ter presente os interesses dos  consumidores. É um política anti-coesão, pois não trata de igual modo todos os agricultores europeus e contribui para a manutenção das disparidades e assimetrias regionais.

Não é verdade que quase metade do Orçamento Comunitário ( 47%) é atribuído à agricultura? E que este montante é absorvido na sua quase totalidade por três sectores?

Ora, se a PAC teve como objectivo principal fazer aumentar a produção agrícola da Europa no pós-guerra, dirigindo para esse efeito os seus apoios, a verdade é que, mesmo depois de se tornar excedentária, designadamente nos produtos que mais apoios recebem, os órgãos decisores da C. E. E. ou da U. E. não se mostraram capazes de impor alterações suficientemente profundas que evitem esses mesmos excedentes e que introduzam mecanismos, quer de maior justiça e equidade, quer que conduzam a uma maior coesão económica e social.

Considero, pois, que, se outras razões não houvesse para se avançar noutro sentido em termos de Política Agrícola Comum, estas seriam suficientes. Na perspectiva de Portugal e dos agricultores portugueses são-no sem dúvida.

Neste quadro, três caminhos se poderão colocar, e já há quem defenda as várias opções. Ou desmantelar pura e simplesmente a actual PAC, ou “renacionalizar” a política agrícola ou, então, introduzir alterações que permitam “reorientar a agricultura europeia para dar resposta aos grandes desafios da competitividade, da qualidade e da sustentabilidade”.

É neste sentido, em meu entender, que deve ser vista e analisada a proposta do Ministro da Agricultura de Portugal consubstanciada no documento “Um novo rumo para a agricultura europeia”.

Esta proposta é clara e, julgo, consensual nos objectivos que persegue: 1) a promoção dos mecanismos de mercado na orientação da produção para a satisfação da procura; 2) a estabilização do rendimento dos agricultores; 3) o redireccionamento dos apoios para a promoção de uma agricultura de qualidade, respeitadora do ambiente, criadora de diversidade e geradora de oportunidades económicas nos diferentes espaços rurais da U. E.

Quanto a mim, o documento em apreço é realista, evidencia inconformismo e mostra capacidade de iniciativa e coerência.

É realista, visto assentar no reconhecimento das realidades agrícolas europeias, diferentes nos diversos Estados-membros, e das novas exigências do mundo de hoje quanto a critérios de qualidade na produção de bens alimentares.

Evidencia inconformismo face ao “status quo” e até às alterações verificadas no âmbito da Agenda 2000, mesmo apesar dos avanços e dos ganhos que então se verificaram para a agricultura portuguesa.

Mostra capacidade de iniciativa ao lançar as bases de um modelo verdadeiramente alternativo à actual PAC. A  proposta agora avançada privilegia o apoio à produção de qualidade e a segurança alimentar, defende claramente a agricultura familiar (deve ter-se presente que 92% das explorações agrícolas portuguesas pertencem ao grupo das Muito Pequenas ou Pequenas Explorações) e a multifuncionalidade e assume que a produção de bens alimentares passa por uma agricultura sustentável, não agressiva do ambiente, perfeitamente adequada ao meio em que se desenvolve. Por outro lado, valoriza a componente emprego.

A proposta portuguesa mostra também coerência com a opção do Governo em avançar com a modulação das ajudas, como consta do Decreto Lei n.º 34/2001.

Ela é, ainda, coerente, com o documento saído do Conselho de Agricultura de Évora, que teve lugar durante a presidência portuguesa. É legítimo lembrar que ali se verificou um razoável consenso, a nível de Conselho, quanto  à necessidade de o debate sobre os novos rumos da PAC “assentar no reconhecimento do carácter rmultifuncional da actividade agrícola, em elevados padrões de qualidade dos produtos alimentares e no reforço das medidas destinadas a apoiar o desenvolvimento das zonas rurais”.

Sobram, pois, as razões para que se avance no sentido de “um novo rumo para a agricultura europeia”, como é o preconizado pelo documento em apreço. Ainda mais se se tiver presente os interesses nacionais e a esmagadora maioria dos agricultores portugueses. Mas é preciso ter em conta que os interesses de outros Estados-membros podem divergir, divergem, mesmo, dos nossos e que, por isso, alguns não estarão interessados em enveredar por esse caminho. Não será fácil fazer valer os nossos pontos de vista. Mas algumas medidas recentes, aprovadas em Bruxelas, indiciam claramente que é este o caminho a seguir.

 

António Martinho

Deputado do PS e Presidente da Comissão Parlamentar de Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas

Em 23-06-2001


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