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Dossier:  

 

CONFERÊNCIA DE IMPRENSA DA CNA

Reforma da PAC

(Análise à proposta do Ministro da Agricultura)

O MADRP apresentou recentemente, para discussão, uma proposta de Reforma da PAC.

Numa primeira análise, entendemos que:

--- TEM ASPECTOS POSITIVOS;

--- TEM ASPECTOS NEGATIVOS;

--- TEM  ASPECTOS  IMPORTANTES  E  DECISIVOS  OMISSOS.

A - Relativamente aos aspectos positivos, constatamos:

  1. O reconhecimento de que a actual PAC e as anteriores são e foram más, incentivando a intensificação excessiva, e a produção de excedentes, descurando o Ambiente, a Saúde Pública e a Qualidade Alimentar, fomentando a desertificação e a desigualdade entre os Agricultores, Regiões, e Estados.

    Há anos que a CNA e a Agricultura Familiar proclamam isto !!! 

  1. A proposta de redistribuir, mais equitativamente, as Ajudas (que são dinheiro público) do FEOGA-Garantia.

  2. A proposta de pôr fim às Ajudas em função das intensificações excessivas, das produtividades, dos rendimentos históricos, da dimensão das explorações e do número de cabeças.

  3. A manutenção da Modulação (redução por escalões das ajudas aos grandes proprietários) e a sua obrigatoriedade em todos os E.M..

  4. A intenção de atender ao Emprego, Ambiente e Qualidade como variáveis para o “volume” das Ajudas a cada Estado Membro e igual ponderação para a repartição interna.

  5. O aumento dos fluxos financeiros do FEOGA-Garantia para Portugal.

B - Não prevê (e não resolve), aspectos negativos e preocupantes:

  1. O perigo, em termos de opinião pública (e não só) de DESLIGAR AS AJUDAS DA PRODUÇÃO, da função útil e produtiva dos Agricultores, passando estes a ser vistos (ainda mais), como “recebedores de subsídios” e usufrutários inúteis dos dinheiros comunitários e públicos.

  2. A possibilidade de não cultivo e abandono.

  3. Os perigos de diminuição drástica da produção nacional e do aumento da dependência agro-alimentar.

  4. A possibilidade de maior intensificação para produzir a mais baixos custos e a concorrência feroz por quem tenha estruturas e condições para isso, com agravamento da situação para a Agricultura Familiar a níveis de “competitividade” e escoamento.

  5. Não aproveitar a oportunidade para impor o plafonamento (tectos ou limites máximos por exploração) a partir de determinado montante de ajudas.

  6. O perigo de eliminação de quotas/direitos/nº de prémios e o que isso representa para as Agriculturas e os Agricultores menos “competitivos” por razões de estruturas fundiárias, solos e climas, etc..

  7. A eliminação dos preços de garantia e das intervenções que permitam, em situações de crise, o escoamento da produção.

  8. O perigo de aumento da desertificação.

  9. O perigo de envelhecimento e não rejuvenescimento do tecido agro-rural, por falta de condições úteis/produtivas/justamente remuneradoras para a Juventude Agrícola e Rural.

  10. Não assume a necessidade de combater a monstruosa burocracia que esta PAC “engendrou”.

C - Omite, por outro lado, situações objectivas que serão decisivas relativamente ao futuro, a nível comunitário e mundial:

  1. A questão do alargamento da União Europeia e os reflexos directos que isso terá na proposta apresentada (e nos acréscimos teóricos de fluxos financeiros para Portugal).

    Para além da questão ambiental, a variável EMPREGO, considerada (e bem) na proposta seria desde logo “distorcida” em termos de repartição de verbas, bastando referir, como exemplo, que para os actuais 5,1% do emprego agrícola no conjunto total da União Europeia a 15 (e em que Portugal tem vantagens comparativas), nos 10 futuros “parceiros”  (PECO) essa média é de 22,5%, com valores de 37,3 – 26,7 – 24,0 e 23,4% na Roménia, Polónia, Lituânia e Bulgária, respectivamente.

  2. A importância, a nível da U.E. da “preferência comunitária”.

  3. A manutenção de barreiras alfandegárias.

  4. O evoluir das negociações no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio).

  5. A questão dos acordos bi-laterais com países terceiros (em especial os de Blair House, com os E.U.A.).

  6. A recente constituição de um “bloco” poderosíssimo por 43 países no âmbito da ALCA (Aliança para Livre Comércio nas Américas), englobando países “dominadores” e outros com condições extremas de dependência e onde não são garantidos direitos mínimos a saúde, educação, emprego, acesso à terra, salários e liberdade sindical e associativa.

Perante tudo isto, a CNA propõe e reclama:

  1. Que se aproveite esta oportunidade para implementar uma nova PAC verdadeiramente alternativa, social e economicamente justa, que assegure preços compensadores à produção (preços que paguem os custos reais de produção e o trabalho dos pequenos e médios Agricultores).   Uma nova PAC que garanta uma alimentação saudável e acessível para todos.

  2. Que a “nova PAC”, para reforço das ajudas ao Mundo Rural e ao seu Desenvolvimento, imponha para todos os E.M. a MODULAÇÃO E O PLAFONAMENTO para qualquer tipo de ajuda pública a conceder;

  3. Que a “nova PAC” contemple a celebração, desburocratizada e regionalizada, de contratos remuneratórios por prestação de serviços eminentemente sociais (multifuncionalidade), dos pequenos e médios Agricultores com o Estado e a União Europeia;

  4. Que a “nova PAC” fomente a produção de produtos de boa qualidade alimentar  e apoie os produtos e os mercados locais/regionais;    

  5. Que a “nova PAC” contemple a “soberania alimentar” e permita aos E.M. mais desfavorecidos aumentar o seu grau de auto-aprovisionamento, para o que também devem aumentar (majorações) os apoios financeiros no âmbito do FEOGA-Orientação (Investimentos);

  6. Que a nova PAC fomente a defesa, valorização e correcto aproveitamento das estruturas, recursos naturais e serviços de apoio à Agricultura e ao Mundo Rural.

  7. O aprofundamento e correcção da proposta do MADRP, aproveitando os aspectos positivos, corrigindo os negativos e tomando posição sobre os omissos;

  8. Que as Ajudas devem continuar ligadas à produção mas evitando o perigo de se enveredar por uma intensificação sem controlo nem respeito pelo Ambiente, pela Qualidade e pela Segurança Alimentar;

  9. Que os produtos sejam pagos à produção a um preço justo e compensador, combatendo a ideia dos “preços artificiais”, com respeito pela especificidade e potencialidades da Agricultura, Regiões e Estados, sem acréscimo de custos ao público consumidor;

  10. A saída da Agricultura do âmbito da OMC, Organização Mundial do Comércio.

A CNA vem a propor e a reclamar outra  PAC desde há muito tempo!

Recorda-se que, já em 1991/92  quando em nome do comércio mundial, da competitividade, da concorrência, do GATT, etc., acabaram parcialmente os preços “justos” à produção , se baixaram os preços de intervenção e garantia e se começaram a pagar ajudas compensatórias pelos diferenciais de preços europeus e mundiais, a Agricultura Familiar – e, em Portugal, a CNA - se opuseram firmemente a essas “reformas” e às PAC’s então impostas.

O mesmo aconteceu com a Agenda 2000.

O tempo, infelizmente, veio dar-nos razão !!!

Volta a ser tempo de se reequacionar, perspectivando e garantindo o futuro para a Agricultura, para os Agricultores e para o Mundo Rural, com respeito pelo Consumidor.

Coimbra, 20 de Maio de 2001

A  Direcção Nacional da  C N A

 


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