É
normal que os que estão afastados da esfera de actividades da Administração
Pública desconheçam os pormenores ou as tecnicalidades do processo de
negociação e preparação do próximo QCA na sua vertente florestal.
O
que talvez não seja tão normal é que esse processo de negociação e de
organização interna decorra (ou tenha decorrido) sem qualquer diálogo ou
informação consequentes com a Sociedade Civil em geral e com a Actividade
Económica, em particular. (Excluo daqui o Colóquio promovido pela Secretaria
de Estado do Desenvolvimento Regional, do MPAT que, afinal, se destinou muito
mais a "ser informada" do que "a informar").
Onde
estão os contactos, formais ou informais, com os agentes económicos? Onde
está a concertação estratégica entre a negociação política e o "lobby"
sócio-económico em Bruxelas? Onde está a legitimação interna da lógica
(nacional ou regional?) que vai presidir à gestão nacional dos futuros
fundos comunitários? Onde está a explicitação dos critérios e prioridades
relativas do próprio QCA?
Vão-se
conhecendo agora os contornos do próximo Plano Operacional Nacional para a
Agricultura e Desenvolvimento Rural (eixos nacional e regional) onde a
floresta aparece, numa mera lógica de continuidade com o PAMAF, quer a nível
nacional (Medida N3: Desenvolvimento Sustentável das Florestas, com acções
no domínio da silvicultura, da exploração/ transformação e da valorização
dos produtos florestais) quer a nível regional (Medida R3, com acções no
domínio do associativismo, da prevenção e do pós-fogos e da valorização
dos espaços florestais de interesse público).
O
que aflige os parceiros - se é que eles estão verdadeiramente preocupados -
é a modulação das ajudas, a formatação dos regulamentos, a elegibilidade
das espécies e acções, o fim desta patética dicotomia técnica e burocrática
hoje existente entre o IFADAP e os serviços orgânicos do Ministério
(DGF e
DRA'S) e a ameaça do ressuscitar de comissões regionais de má memória, a
que se vem juntando a confusa mas tentacular presença dos serviços do Ministério
do Ambiente, em cada vez maior número de actividades silvícolas.
Teria
sido (mais) uma boa altura para clarificar responsabilidades técnicas e políticas,
na já velha reivindicação pela escolha de um só "dono do
problema" florestal.
Urna
estranha apatia nacional - da oposição à comunicação social - parece
confirmar a ideia apaziguadora que presidiu à campanha eleitoral do partido
que apoia o governo: Está tudo em "boas mãos" (logo, podemos ficar
descansados e até distraídos ... ).
A
mesma tranquilidade reina aliás, este ano, em matéria de fogos florestais:
Até final de Agosto (e após um prolongado "black out" de dados
estatísticos) os Serviços Florestais noticiavam a eclosão de quase 27 mil
fogos, ou seja, um nível equivalente ao máximo verificado no quinquénio
anterior, a área ardida (que as condições climatéricas notoriamente
mitigaram) ultrapassava naquela data os 22 mil ha de povoamentos, ou seja, o
terceiro pior ano dos últimos seis ... mas os fogos florestais
"desapareceram" dos títulos dos jornais ou dos directos das televisões!
Onde
estão as "forças vivas" que anunciaram há quatro ou cinco anos o
Conselho lnterprofissional Florestal (CIF) afrontando (com êxito, aliás) uma
administração pública florestal que no fim do segundo governo de Cavaco
Silva se divorciava dos agentes económicos? Onde estão os empresários e os
proprietários florestais que se juntaram para saudar a elaboração do estudo
do BPI? Onde estão aqueles que num futuro próximo precisarão de
certificados de gestão florestal sustentável para continuarem a ser
competitivos nos seus negócios? Onde estão as decisões (e as exigências)
dos "capitães da indústria" que visem acautelar o futuro da
fileira florestal portuguesa?
Não
estão ...
E
o resultado evidente da hibernação (ou declínio?) do sector florestal
português é - para já - a não inclusão, nos programas políticos já
divulgados pelos principais partidos para as eleições legislativas, de
qualquer referência séria ou determinada à fileira silvo-industrial.
Será
que a microscópica criatura que ataca o pinheiro bravo na Península de Setúbal,
e que tão justamente preocupa os técnicos, é que vai acordar o País para o
impacte e importância do sector florestal em Portugal?
Admitindo
que a fileira silvo-industrial privada sabe o que quer e do que precisa - como
provou no famoso relatório BPI que alguns funcionários e dirigentes da
chamada Autoridade Florestal Nacional se encarregaram de truncar e censurar
(na impossibilidade de lhe efectuarem um clássico auto-de-fé) - então é
caso para recordar e aplicar a esta actividade o que um famoso questor romano
escrevia desta Lusitânia: «Estranho povo este que não se governa nem se
deixa governar».