É
inegável que a motomecanização da agricultura permitiu, entre outras coisas,
reduzir ao mínimo a penosidade na realização dos trabalhos agrícolas, que os
métodos tradicionais impunham; aumentar de forma espectacular o rendimento do
trabalho, as áreas das culturas e as consequentes produções; e uma fortíssima
redução da população activa agrícola que, nos países mais evoluídos, se
transferiu para outros sectores com perspectivas de vida mais aliciantes.
No
entanto, não é lícito ignorar alguns aspectos menos positivos, também
decorrentes da motomecanização que, pela sua importância, merecem alguma
reflexão, nomeadamente os de carácter económico e ambiental.
Para
além da natureza biológica das produções e das irregularidades climáticas,
o trabalho agrícola, quando mecanizado, é fortemente condicionado pelas
características fundiárias das explorações,
especialmente no que se refere, às dimensões e formas das parcelas e sua
eventual dispersão e aos obstáculos que nelas possam existir.
As
Estatísticas Agrícolas Portuguesas evidenciam claramente que, na maior parte
da nossa área agrícola, predomina
a propriedade de pequena ou mesmo muito pequena dimensão, por vezes fortemente
pulverizada em parcelas minúsculas, especialmente nas zonas de melhor aptidão.
Esta
realidade, aliada à insuficiência ou mau estado das vias de comunicação, é
consideravelmente limitativa da eficiência do trabalho das máquinas, na medida
em que gera um volume muito considerável de tempos improdutivos o que, aliado
às fracas intensidades de utilização anual,
tende a provocar situações de acentuada sobremecanização e o
consequente encarecimento das unidades de serviço.
Segundo
uma estimativa relativamente recente dos serviços do Instituto de Hidráulica,
Engenharia Rural e Ambiente (IHERA), em algumas regiões do país os encargos
fixos imputáveis aos parques de máquinas chegam a atingir valores superiores a
30 contos por ha de SAU e por ano, o que permite permite pressupor que muitos
agricultores investem na compra de máquinas, sem expectativas de retorno,
verbas importantes provenientes de outras actividades, que eventualmente
constituem as suas ocupações principais.
A
ultrapassagem destas dificuldades não se afigura de solução fácil; de facto,
a questão que se coloca tem a ver exclusivamente com o incremento da
racionalização do uso das máquinas agrícolas, o que terá necessariamente
que ter em conta a adequação da estrutura fundiária à mecanização e, ao
mesmo tempo, uma escolha criteriosa das máquinas tendo em conta as condições
da exploracão, o que muitas vezes se torna difícil, aconselhando-se então o
recurso a qualquer forma de utilização em comum de máquinas, nomeadamente os
prestadores de serviços.
É
também inegável que as questões de carácter ambiental relacionadas com a
generalização do uso das máquinas agrícolas, nos países de agriculturas
mais evoluídas, assumem uma importância crescente. Prova disso é o volume de
informação produzida, sob a forma de guias ou de códigos de boas práticas,
onde normalmente aparecem com especial destaque
aspectos relacionados com o solo, como a erosão e a compactação, com a
aplicação massiva de fertilizantes e produtos fitofarmacêuticos, com os
destinos a dar aos óleos queimados resultantes das mudanças de óleo dos
motores e com as emissões de dióxido de carbono para atmosfera.
Para
minimizar os efeitos dos aspectos acima mencionados aconselha-se o recurso a técnicas
e a equipamentos que conduzem a uma nova abordagem das questões da mecanização
agrícola que, no que se refere ao binómio máquinas/solo, passa, entre outras
medidas, pela mobilização mínima, pela sementeira directa e pela redução do
número de passagens das máquinas, através da
prática de operações combinadas. Quanto à aplicação de
fertilizantes e de produtos fitofarmacêuticos exige-se cada vez maior precisão,
por parte dos equipamentos de aplicação, tanto em termos do volume das substâncias
activas a aplicar, como da sua
localização.
Apesar
de não existir informação sobre o quantitativo do volume de óleos queimados
provenientes da actividade agrícola, é possível estimá-lo em vários milhões
de litros por ano, pelo que a questão da sua reciclagem se afigura da maior
importância, na medida em que se trata de matéria altamente poluente,
tornando-se imperativo que sejam criadas as condições necessárias ao
cumprimento da legislação existente.
As
emissões de CO2 para a atmosfera têm sido matéria de discussão ao mais alto
nível, até em cimeiras mundiais, na
medida em que contribuem para o denominado "efeito de estufa" e
consequente subida da temperatura do planeta. Apesar de tudo, a maioria dos
autores não aponta a actividade
agrícola como um agente decisivo nesta matéria, ao contrário do que se passa
com os sectores dos transportes e da indústria,
o que não significa que a agricultura não tenha que assumir a sua quotaparte
em termos de minimização dos seus efeitos.
Impõe-se
portanto que os agricultores, especialmente as camadas mais jovens, sejam
motivados a reunir o maior volume de informação possível
que lhes permita ter consciência das implicações da posse e da utilização
de parques de máquinas, tanto do
ponto de vista económico como do seu eventual impacto na conservação dos
recursos naturais e na preservação do ambiente.
É
óbvio que os serviços oficiais, quer ao nível central, quer ao nível
regional, deveriam ter capacidade para proporcionar aos agricultores um
aconselhamento competente e a formação e informação indispensáveis ao
sucesso das suas actividades e a um melhor conhecimento dos aspectos ambientais
referidos, necessariamente condicionantes a médio ou a longo prazo, desse mesmo
sucesso.