O mundo inteiro vai estar suspenso das sessões de trabalho que a diferentes níveis
ocorrerão esta semana em Seattle donde se espera sair uma agenda de trabalhos para a
negociação da Ronda do Milénio da Organização Mundial do Comércio (OMC) que sucederá ao actual Acordo de Marraquexe que termina em 2001..
Em vigor desde há quase meio século, os sucessivos acordos do GATT, agora rebatizado de OMC, sempre visaram o estabelecimento de regras multilaterais com o objectivo final de promover o comercio entre os povos, desde sempre assumido
como um instrumento de desenvolvimento.
À medida que a globalização vai avançando foi-se tomando evidente que o mero livre cambismo
não era propriamente equivalente a desenvolvimento, pois que muitas vezes a competitividade de certos
países se baseava (e baseia) na exploração de mão de obra em condições incompatíveis com um elementar respeito pelos direitos humanos
(mão de obra infantil, salários de miséria, inexistência de qualquer protecção social na
doença e na velhice), no desrespeito por regras de preservação ambiental ou
secundarizando aspectos relacionados com o conteúdo intrínseco dos produtos alimentares.
Tal com aconteceu em 1994, a Agricultura será um dos dossiers mais complexos e
difíceis de negociar.
Em 1994 foi difícil especialmente por ser a primeira vez que o sector agro-alimentar era integrado no GATT, sendo
então acordado que ao longo dos 6 anos do período de aplicação, todas as partes teriam de melhorar
o acesso ao mercado e reduzir os apoios internos à agricultura considerados distorsores do
comércio internacional em 20% , e reduzir o valor dos subsídios à exportação em 36%.
A ronda que agora começa vai reeditar as mesmas clivagens e conflitos. OS Estados Unidos e os seus aliados do grupo de Caims
defenderão a eliminação progressiva de todos os subsídios à agricultura e o fim da especificidade
agrícola. São países dos novos Continentes, onde abunda o espaço e faltam as pessoas, com estruturas produtivas incomparavelmente melhores do que
as da UE. Basta pensar nos 450 hectares de dimensão média duma exploração agrícola americana nos 350 do
Canadá nos 250 da Nova Zelândia ou nos 2000 da Austrália, e compará-los com os 18 hectares de
média da UE, para já não falar nos 9 de Portugal.
Neles a agricultura é uma indústria que se especializou regionalmente, onde prevaleceu a
lógica do "get bigger or get out" e onde o que importa é produzir barato a todo o custo.
A situação da União Europeia é radicalmente diferente, apesar de ser respectivamente
o primeiro e o segundo importador e exportador mundial de produtos
agroalimentares.
Por isso há cinco questões fundamentais que a União Europeia tem que ter claro e defender com
intransigência nestas negociações.
A primeira é que, a única forma de ter uma postura ofensiva nestas negociações e apresentar em cima da mesa a
verdadeira realidade da sua agricultura, a qual se traduz numa actividade marcadamente multifuncional, que combina a sua
função económica com a preservação do ambiente e das paisagens rurais e assegura a
presença do homem em todo o território da União. Nesta medida a agricultura
é a principal e primeira matriz do ordenamento do território. Se a agricultura desaparecer dum
espaço tudo o resto desaparece com ela: a economia, o emprego, o património, a cultura, a gastronomia, enfim, a
história. Ora, essa realidade europeia que queremos preservar a todo o custo tem um nome: chama-se modelo europeu de
agricultura. E sendo assim, a UE não deverá aceitar nenhuma medida que ponha em causa a
sua realidade agro-rural.
A segunda é que a UE só pode aceitar entrar numa negociação sobre o sector agro-alimentar se ficar claro que o
comércio livre é inseparável do comércio justo. Nesta medida a competitividade e a liberdade
económica não se podem limitar às tradicionais medidas comerciais (reduções de tarifas e de
preços), mas devem incorporar considerações hoje tão ou mais importantes
como sejam a qualidade e a segurança dos alimentos, a protecção ambiental, o bem-estar animal e, em
geral, a sensibilidade dos consumidores.
Associada a esta questão está o principio da precaução e em que moldes ele
poderá ser invocado. Ou seja, o direito de os diferentes Estados poderem tomar medidas especiais de condicionarem a
comercialização de certos produtos quando existam dúvidas fundamentais acerca do seu grau de risco para a
saúde dos cidadãos ou para o ambiente. O que se pretende e sem que de futuro, não se repita o que aconteceu com a UE que, para defender os seus
cidadãos ao impor regras de segurança em matérias de carne com hormonas ou de
organismos geneticamente modificados, sofreu retaliações comerciais impostas pela
própria OMC.
A terceira é que não podemos continuar a assistir à pirataria que é feita às marcas
comunitárias, designadamente aos produtos de qualidade com denominação de origem, como fazem os
campeões do liberalismo como a África do Sul, os Estados Unidos, a Austrália ou a Nova
Zelândia com denominações consagradas como o vinho do Porto ou o Xerez
A UE só poderá subscrever um novo acordo da OMC se ficar preto no branco o respeito por estas
regras, o que equivale a comprometerem-se a deixar de utilizar tais designações,
após um período transitório que deverá ser muito curto.
A quarta questão é que há que ter consciência que, dentro da sua especificidade geral, a
agricultura europeia também é profundamente heterogénea nas suas inserções regionais.
E nessa medida, pela lógica da defesa do modelo europeu de agricultura, é fundamental assumir que nem todas
as agriculturas têm a mesma capacidade de adaptação e sobrevivência. Em especial
serão necessárias medidas para os segmentos de maior risco, que são as pequenas
explorações familiares, as zonas desfavorecidas e as zonas com constrangimentos ambientais. A
compatibilizacão desta heterogeneidade de sistemas agrícolas deveria fazer-se mediante uma
gestão ponderada das ajudas classificadas na "caixa azul" com as da "caixa verde" e, em geral, pelo
reforço tendencial desta última no âmbito do actual "segundo pilar" da PAC.
A terminar importa fazer uma observação importantíssima. É que, pela primeira vez, a
União Europeia se encontra em situação para ter uma posição ofensiva no dossier
agrícola.
Em primeiro lugar porque no curto espaço de 7 anos fez duas importantes reformas da sua
política agrícola (PAC) que, apesar de não terem ido tão longe quanto muitos esperariam (eu
próprio incluído) marcam uma clara evolução face aos novos padrões da política
agrícola consagrada ao nível da OCDE. Por isso a reforma da PAC realizada no contexto da Agenda 2000 deve constituir o quadro
básico de referênia para a sua margem de manobra.
Em segundo lugar porque os Estados Unidos foram finalmente apanhados nas suas próprias
contradições. Bastará referir alguns exemplos. Em 1996 aprovaram uma nova política
agrícola, a que atribuíram a provocatória designação de lei FAIR (Federal Agricultural Improvement and Reform Act) tendo decidido unilateralmente que todas as ajudas veiculadas no
âmbito da sua política agrícola não eram distorsores do mercado, pelo que as classificaram desde logo na "caixa verde" da OMC, o que significa que
não são consideradas para efeitos da contabilização dos subsídios à agricultura...
Assim, enquanto que a UE se vê obrigada a reduzir os seus subsídios à exportação em 36% em 6
anos, os créditos à exportação americanos, que têm exactamente os mesmos objectivos,
não são pura e simplesmente afectados. Depois acontece que quase metade dos apoios
à agricultura é dado sobre a forma de ajuda alimentar interna e externa. Sendo que a ajuda alimentar externa funciona como um subsidio em
espécie a quem comprar produtos americanos. Mas não é contabilizada para efeitos
do cálculo dos subsídios agrícolas distorsores do comercio!...
E, por fim, os campeões da redução dos subsídios agricolas acabaram por aumentar os seus apoios
à agricultura em 15.000 milhões de dólares em 1998 e 1999, preparando-se para aumentar mais 11.000
milhões em 2000.
Ou seja, descobrimos agora que fomos vitimas de um equivoco chamado propaganda americana,
mas também de alguma falta de trabalho de casa por não termos procurado investigar
anteriormente estas manobras de ocultação aos subsídios agrícolas americanos.
Mas mais vale tarde do que nunca, como diz o ditado. Por isso é fundamental ler cada uma das linhas do comunicado
final que sairá de Seattle (se houver) porque cada palavra será uma chave da resolução do labirinto que
vão ser estas negociações.
29/11/1999
Arlindo Cunha
(Eurodeputado, relator do PE para o dossier
Agrícola da OMC)