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As
rosas são flores bonitas. Por isso gostamos de as ter no jardim,
por isso as oferecemos em momentos especiais a pessoas que são
importantes para nós. Mas as rosas têm espinhos. Por isso o
floricultor usa luvas e a florista compõem o ramo de modo a
proteger o cliente, que terá ainda algum cuidado. Mesmo assim, se
algum espinho aparecer e picar, não será motivo de reclamação:
faz parte da rosa.
As
vacas também são bonitas: são animais simpáticos e pachorrentos;
Pastando e ruminando calmamente, fazem parte da paisagem na Holanda,
nos Açores e em muitas regiões de Portugal continental.
A
maioria das pessoas que não tem vacas, sobretudo as crianças,
gostam de as ver e tocar. Para além disso, as vacas dão bifes
apetitosos e fazem o leite, alimento completo recomendado para todas
as idades. Por isso muitas pessoas admiram o trabalho dos
agricultores que cuidam, alimentam e ordenham as vacas 365 dias por
ano. As vacas não têm espinhos, mas cheiram... a vaca e produzem
excrementos que cheiram... a excremento de vaca. E as moscas gostam
das vacas e de toda a matéria orgânica que existe nas vacarias.
Por isso as pessoas reclamam. Por isso o ambiente já é a primeira
preocupação de muitos agricultores. Mais do que os nitratos das
águas ou a poluição ocasional de alguns ribeiros, o problema
ambiental das vacarias que mais incomoda as pessoas tem a ver com os
maus cheiros.
Infelizmente,
este espinho é mais difícil de lidar que os das rosas. Seria mais
fácil se alguém tivesse feito planeamento e organização do
território, definindo e respeitando zonas agrícolas e zonas de
construção. Como tal não aconteceu, resta-nos fazer os possíveis
para diminuir os problemas deste convívio inevitável entre vacas e
pessoas. Como fazer? Quem?
Faltam
conhecimentos, tecnologias, regras. Alguma investigação já se
fez, muita mais será precisa. São precisas verbas para preparar e
fazer a reconversão ambiental das explorações leiteiras.
Descobrir técnicas e produtos para diminuir a libertação de gazes
como o amoníaco, responsável pelos maus cheiros. Aumentar a
capacidade de armazenagem dos chorumes nas vacarias. Talvez
construir estações de tratamento colectivas para os excedentes que
não podem ser aplicados nas próprias terras e poderão ser
valorizados na horticultura, vinhas ou florestas. Descobrir a melhor
forma de espalhar e incorporar rapidamente o chorume na terra...
Tudo isto é trabalho para Universidades, Governo, Autarquias.
Entretanto,
porque estas coisas demoram, os "agricultores urbanos"
podem também usar o bom senso para atenuar os incómodos da sua
actividade:
Procurando
manter limpas e secas as vacarias e áreas circundantes; Tentando
controlar as moscas; Evitando espalhar chorume próximo das
habitações ao fim de semana ou com vento nessa direcção;
procurando incorporar o chorume na terra o mais rápido possível;
Evitando sujar os caminhos tanto quanto possível e limpando
rapidamente quando algum acidente aconteça; Procurando manter
relações de boa vizinhança, para que o mau cheiro não seja a
"gota de água" a fazer transbordar o copo que já estava
cheio...
Por
último, será sempre preciso lembrar às pessoas que os
agricultores não trabalham para as arreliar, trabalham para as
alimentar; Que a nossa terra só é fértil porque há muitas
centenas de anos recebe matéria orgânica, e o estrume sempre
cheirou a estrume, e os maus cheiros também fazem parte da vida no
campo tal como os cheiros das flores ou do feno, o sol e a chuva, o
pó e a lama, as rosas e os espinhos...
Carlos
Neves
Jovem
Agricultor
Publicado
em 02/08/2003
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