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Com
vista a debater o tema em referência, o Instituto Superior de
Agronomia promove um Seminário nos próximos dias 20 e 21 de Maio,
o qual terá lugar na Tapada da Ajuda, em Lisboa.
Sem
esquecer que a percepção social dos riscos (entre outros factores
não científicos) condiciona a política alimentar, gostaria de
enunciar os principais problemas que, no meu modesto entendimento,
efectivamente afectam a segurança sanitária dos géneros alimentícios
na actualidade ou que potenciam os efeitos deletérios dos agentes
patogénicos.
Apesar
de, sobretudo nas últimas duas décadas, se terem alcançado
avanços notáveis no conhecimento das doenças adquiridas por via
alimentar e nos processos susceptíveis de serem implementados em
ordem à minimização dos riscos, cumpre ter em atenção que,
paralelamente, emergiram novas ameaças reais para a saúde pública
relacionadas com a segurança dos alimentos.
Em
primeiro lugar, assinale-se a crescente expansão da alimentação
colectiva e da preparação industrial dos géneros alimentícios,
associadas à centralização do processamento de grandes
quantidades de alimentos, por vezes distribuídos por regiões do
mundo distantes.
Nestas circunstâncias, qualquer incidente que
ocorra nas mencionadas fases de preparação culinária ou
transformação de géneros alimentícios, pode afectar um número
elevado de consumidores (e. g., nos EUA ocorreu um surto provocado
por gelados contaminados por Salmonella Enteritidis que afectou
centenas de milhar de consumidores) e debilitar a confiança do
público, dada a ampla visibilidade de tais incidentes, que a todos
evocam a vulnerabilidade do ser humano.
Com
vista a minimizar os riscos, um número crescente de empresas - dos
sectores da produção, da transformação, da distribuição e da
restauração colectiva - tem recentemente vindo a aplicar (para
além das medidas tradicionalmente utilizadas para prevenir e
controlar a contaminação dos alimentos) diversos procedimentos em
ordem a garantir uma maior segurança dos géneros alimentícios (e
dos alimentos para animais), a saber: código de boas práticas,
sistemas de rastreabilidade e o sistema de autocontrolo conhecido
pela sigla HACCP, baseado na análise dos perigos e no seu controlo
preventivo em pontos críticos monitorizados de forma adequada.
O
tratamento dos géneros alimentícios por radiação ionizante
representa um processo promissor na redução das contaminações
bacterianas. Já é aplicado nalgumas situações, nomeadamente no
tratamento de alimentos pré-cozinhados. O termo, todavia, tem uma
conotação negativa junto do público, o que provavelmente irá
dificultar uma ampla aplicação do referido tratamento. Convém
enfatizar, todavia, que é na fase de pré-colheita (quando não
mesmo de sementeira, para prevenir infecções fúngicas) e no
estábulo, que convém começar a aplicar medidas conducentes à
prevenção da ocorrência de contaminantes microbiológicos e
químicos.
Em
segundo lugar, no mundo assiste-se diariamente ao aumento da
proporção da população com deficiências no sistema
imunitário,
portanto mais susceptíveis aos efeitos nocivos dos agentes
infecciosos, eventualmente presentes nos alimentos. Por exemplo, uma
infecção por Salmonella Enteritidis tem um carácter benigno numa
pessoa imunocompetente, mas pode causar septicemias severas num
doente imunocomprometido.
Os
doentes com maior grau de depleção imunológica são os que
apresentam infecção HIV (síndroma da imunodeficiência adquirida
ou SIDA), os transplantados de medula óssea e os que são
submetidos a tratamentos por radioterapia, quimioterapia ou com
drogas imunossupressoras. Os diabéticos e os idosos, em proporção
crescente nas sociedades afluentes, são também imunodeprimidos
(assim como os recém-nascidos, cujo sistema imunitário não se
encontra ainda suficientemente desenvolvido).
Considerando
o elevado risco a que estão expostos certos tipos de doentes,
alguns técnicos de saúde recomendam que se ultrapassem
preconceitos e se recorra ao consumo de alimentos irradiados,
especialmente no caso de doentes com depressão imunitária
profunda.
Em
terceiro lugar, é preocupante a crescente resistência dos
microrganismos aos antibióticos, devido primordialmente ao uso
inadequado da antibioterapia em medicina humana (e. g., a maioria
das estirpes de Staphylococcus aureus - os estafilococos produzem
uma exotoxina termorresistente, que pode estar presente nos
alimentos, designadamente quando manipulados em condições de
higiene deficientes - resiste à penicilina e a outros
antibióticos). Esta é, pois, uma razão adicional para se
consumirem géneros alimentícios isentos de bactérias
patogénicas.
Mas
convém acrescentar que investigações recentes revelam que algumas
bactérias patogénicas têm capacidade para desenvolverem
resistências não só aos antibióticos mas também a condições
adversas do meio (pH, actividade de água, temperatura, etc.) não
letais, dando origem a mutantes que não só sobrevivem e se
multiplicam nessas condições, como podem adquirir maior
virulência. Assim sendo, pode-se tornar difícil inactivar ou
controlar os microrganismos emergentes através dos processos
tradicionais de conservação dos alimentos. Cumpre, pois, proceder a
uma monitorização correcta e exaustiva da qualidade sanitária dos
alimentos, quer após o processamento quer durante o armazenamento
subsequente. Em biologia, de facto, o risco zero é uma heresia.
Em
quarto lugar, refiram-se os efeitos nocivos de diversas
micotoxinas,
ainda insuficientemente estudados no Homem, mas inequivocamente
demonstrados em animais, quer de laboratório quer produtores de
géneros alimentícios.
Tendo
em conta que algumas toxinas fúngicas têm efeitos cumulativos e
são responsáveis por patologias com uma longa duração
(suspeitando-se que favorecem o desenvolvimento de neoplasias
malignas nos seres humanos), a prevenção e controlo das
micotoxinas, que ocorrem naturalmente nos alimentos vegetais, e o
estudo das micotoxicoses, constituem tópicos importantes e
fascinantes que serão certamente aprofundadas no Terceiro Milénio.
Seguidamente,
é preocupante, no nosso país em particular, o número elevado de
casos de brucelose humana que se continua a registar: no ano 2000
foram notificados 500 casos de febre de Malta em Portugal,
estimando-se, porém, que a incidência real seja bastante superior
à declarada, devido , principalmente, a insuficiente informação
acerca das afecções humanas causadas por contacto directo com
animais infectados. É imperioso e urgente erradicar esta doença
infecto-contagiosa (assim como a tuberculose bovina), exigindo-se
para o efeito um empenhamento responsável e efectivo do Estado, dos
criadores de gado e da União Europeia.
Por
último, mas não menos relevante, importa que o consumidor:
i)
interiorize que lhe compete conservar, manipular e confeccionar
correctamente os géneros alimentícios, sendo que aproximadamente
um terço das toxinfecções alimentares ocorridas na Europa são
devidas a deficiente tratamento dos alimentos em casa; a difusão de
programas formativos sobre doenças de origem alimentar e a
rotulagem dos géneros alimentícios, podem contribuir para uma
melhor educação e informação do consumidor, convindo realçar as
medidas de higiene de uso universal, as regras de
congelação/descongelação, o controlo dos tratamentos térmicos e
as contaminações cruzadas;
ii)
tenha oportunidade, e seja mesmo encorajado, a participar na
avaliação científica dos riscos, e que exija que a comunicação
dos riscos lhe seja transmitida de forma rápida e clara - procedimentos que irão contribuir para que o público adquira mais
confiança nos decisores da política alimentar, afaste crenças e
preconceitos infundados, e aceite as mudanças.
Até ao
presente, em geral o preço tem sido o factor mais determinante nas
decisões de compra dos géneros alimentícios; mas, à medida que
se eleva o poder de compra da população e depois de atingido um
estádio de sobrealimentação, é previsível que uma proporção
crescente de consumidores venha a alterar a sua atitude no sentido
de privilegiar a qualidade e a segurança dos alimentos (definidas
de acordo com a sua percepção, que frequentemente não coincide
com a dos técnicos de alimentação).
Esta
dualidade de critérios tem sido perfilhada pelos decisores
políticos comunitários, cuja estratégia nebulosa está a conduzir
a Europa para uma encruzilhada: por um lado, definem
peremptoriamente como objectivos a produção de alimentos
"seguros e sãos", em ordem a assegurar-se "um
elevado nível de protecção da vida e da saúde humana"; mas,
por outro lado e simultaneamente, fomentam sistemas de produção,
animal e vegetal, que não se compaginam com as estratégias que
cumpre aplicar, com vista à prossecução dos desideratos apontados
no domínio da segurança dos alimentos. Mas é nossa firme
convicção que, à semelhança do que aconteceu com aqueles que
combateram Galileu, também não têm futuro as decisões políticas
sobre segurança alimentar tomadas ao arrepio do conhecimento
científico.
Este cenário, caracterizado por desígnios contraditórios, envolve
incertezas e ameaças, mas também propicia oportunidades à
Agricultura Portuguesa.
Manuel
Chaveiro Soares
Prof.
do Instituto Superior de Agronomia
Publicado
em 15-04-2002
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