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Tenho
acompanhado com atenção as várias notícias que chegam da
Alemanha relativamente aos produtos de agricultura biológica
contaminados com pesticidas. Independentemente dos responsáveis que
vierem a ser encontrados, está lançada
a suspeita sobre os produtos biológicos: a mesma comunicação
social que “elevou aos
altares” a agricultura biológica por oposição à agricultura
convencional dos antibióticos, hormonas e vacas loucas, vai agora
explorar o escândalo até aos limites. E, assim como muitos
consumidores não conseguem ver um bife sem pensar em vaca louca,
também agora pensarão “pesticida” de cada vez que olharem um
produto de agricultura biológica.
A
comunicação social dos nossos dias tem uma enorme tentação de
dividir o mundo em “bons” e “maus”, como nos antigos filmes
de cowboys, procurando frases curtas e bombásticas para a
capa do jornal ou o rodapé do noticiário da TV. As propostas de
moderação e bom senso vendem pouco. Compreende-se, por isso, que a
proposta de uma agricultura “radical”, sem produtos químicos,
respeitadora do ambiente, fosse o ideal para apresentar como
alternativa a todos os males da agricultura convencional, praticada
por pessoas “egoístas” e sem escrúpulos, que só pensam no
lucro fácil.
Sem
querer pôr em causa o valor efectivo da agricultura biológica e as
enormes potencialidades que representa para muitas regiões do nosso
país, creio ser oportuno lembrar que a agricultura biológica não
tem o exclusivo da protecção agro-ambiental e que, entre o extremo
de uma agricultura “convencional” baseada no exagero de produtos
químicos e mutações genéticas e outro extremo de rejeitar todas
as descobertas científicas e produtos da indústria, há um meio
termo que muitos já praticam em Portugal e que poderíamos muito
bem baptizar como 3ª via.
De
facto, podemos observar um paralelismo curioso entre a evolução
política da humanidade e a evolução da agricultura, pois tanto a
revolução agrícola como o capitalismo foram consequências da
revolução industrial e também
a agricultura biológica e o comunismo surgiram por oposição aos
excessos e consequências negativas dos primeiros.
Não
vou naturalmente comparar a queda do muro de Berlim com este
incidente que por acaso também aconteceu na Alemanha, mas, tal como
foi proposta uma 3ª via intermédia entre o capitalismo e o
comunismo, também será razoável defender uma agricultura sustentável
que defenda o ambiente sem cortar radicalmente com todo o sistema de
produção actualmente utilizado. Aliás, é isso o que já fazem
milhares de agricultores em Portugal com a protecção integrada e a
produção integrada, recorrendo ao apoio técnico de associações
(como é o caso da AJAP) para utilizar o mínimo de produtos químicos
no tratamento das culturas; É isso o que faz quem aplica as doses
recomendadas nos rótulos e respeita os intervalos de segurança, não
vendendo produtos com resíduos de pesticidas; É isso o que faz
quem aplica estratégias de prevenção e bem-estar animal para
evitar doenças e assim utilizar o mínimo de antibióticos no seu
tratamento.
Cresci
no meio de explorações de agricultura convencional, que utilizam
adubos e pesticidas há dezenas de anos; Descobri depois a
agricultura biológica e até me tornei sócio de uma associação
que defende e promove esta forma de agricultura. Estou convencido
que muita coisa tem de mudar na agricultura intensiva praticada
actualmente, mas não acredito na sua substituição instantânea
pela agricultura biológica que nos é proposta actualmente.
Partilho com os agricultores biológicos os ideais de proteger o
ambiente e a saúde dos consumidores (e agricultores) e partilho
também o desejo de que haja por parte do Estado muito mais
investigação no desenvolvimento da agricultura biológica, que
ainda dá os primeiros passos. Mas, se nos preocupamos realmente com
o ambiente e a saúde da população, não podemos utilizar a pouca
agricultura biológica que temos actualmente como “descarga de
consciência” ambiental, da mesma forma que as nossas cidades têm
um “dia sem carros” e passam o resto do ano entupidas com
engarrafamentos.
Precisamos
garantir desde já a segurança alimentar em todas as formas de
agricultura e um desenvolvimento agrícola sustentado, que respeite
o meio ambiente, com bom senso, sem utopias de dispensar as
multinacionais de agroquímicos (acredito mais depressa na pressão
para que produzam também elas produtos mais “ecológicos”), sem
pôr em causa todo o progresso científico que nos precedeu, com
muito estudo e controlo nos produtos utilizados e produzidos e,
sobretudo, sempre com bom senso e humildade para reconhecer que
ainda temos muito para aprender.
Carlos
Neves
Jovem
Agricultor
Publicado
em 03-06-2002
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