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A
produção de leite em Portugal evidenciou nos últimos anos uma
tendência vincada para a intensificação e para a especialização,
que é ilustrada pelo declínio do número de animais, e por
aumentos da dimensão da “exploração média” e da produção média
por animal. No entanto, estes indicadores ainda estão longe dos
respectivos homólogos médios na UE. Não é portanto improvável o
reforço daquelas tendências nos próximos anos. Pelo contrário,
afigura-se certo, porque imprescindível para sobreviver.
A
concentração da produção em menos e maiores explorações
aumentou, registando-se paralelamente a sua concentração
locacional em regiões com maior aptidão para a actividade.
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Gráfico
I – Evolução do número de Produtores
e
da Entrega média em Portugal

Fonte :
INGA
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Estes
ajustamentos são atribuíveis à necessidade de aumentar a eficiência
económica dos sistemas de produção, resultante das pressões de
um mercado progressivamente mais exigente e competitivo. Têm
todavia sido acompanhados pelo surgimento de problemas de natureza
ambiental.
A
FENALAC, consciente do caracter decisivo do desafio que os
Produtores começam a enfrentar neste plano,
tem promovido a divulgação das “Boas Práticas Agrícolas”,
e patrocinou a realização de um diagnóstico do impacto ambiental
da produção de leite. Esse diagnóstico está na fase final de
preparo, e será um instrumento essencial para a concepção de uma
estratégia de ataque ao problema.
Assinale-se
desde já que a resolução da questão ambiental não passa por
soluções teóricas fáceis que têm, de resto, sido avançadas e
que enunciam a reorientação da produção ou mesmo a sua
deslocalização espacial enter Regiões. Além disso, convém ter
presente as consequências sociais e económicas que tais “soluções”
comportariam, e o facto de só em plano teórico ser viável encarar
a transferência espacial maciça de produções agrícolas (como se
produções industriais fossem). Na realidade, os aparelhos de produção
em agricultura não revestem a flexibilidade dos seus congéneres
nos outros sectores da Economia...
Por
outro lado, a pretensão de considerar a extensificação da produção
como a melhor - senão a única- solução para a minimização dos
problemas ambientais na Agricultura, denuncia uma perspectiva
excessivamente redutora. Encare-se, a este propósito e por
analogia, a situação de ridículo em que poderia incorrer alguém
que defendesse solução idêntica para a produção industrial.
Obviamente
que os sistemas agrícolas mais intensivos comportam riscos
ambientais, da mesma forma que os fenómenos de concentração
industrial e/ou urbana, para além de poderem prejudicar seriamente
o ambiente, se traduzem, em muitos casos, na degradação da
qualidade de vida das populações.
A
preservação desses sistemas, e a sua compatibilização com o
objectivo da sustentabilidade ambiental, reclama a realização de
investimentos importantes (transferência de estábulos, estações
colectivas ou individuais de tratamento de efluentes,...) visando a
redução dos riscos que lhe estão associados.
Mas
não se pode visionar que a produção leiteira nas regiões com
aptidão edafo-climática se mantenha à custa de densidades animais
significativamente mais baixas, que poderiam inviabilizar os
delicados e difíceis equilíbrios económicos em que assenta a
actividade.
O
Caso dos Países Baixos
A
FENALAC tem investigado a abordagem desta questão noutros Estados
da UE. As acções desenvolvidas nesta matéria na Dinamarca, França
e Países Baixos são relevantes e têm retido a nossa atenção.
O
sistema de produção que prevalece nos Países Baixos, apresenta
uma configuração idêntica ao predominante em Portugal. Sendo
assim, interessa conhecer as principais directrizes do plano
delineado pelas Autoridades holandesas para a resolução dos
citados problemas.
Apesar
das disparidades existentes entre os dois países, relativamente às
condições edafo-climáticas, às estruturas agrícolas, e
inclusive à capacidade financeira dos Produtores, as medidas
implementadas nos Países Baixos podem fornecer pistas válidas para
a resolução do problema entre nós.
A
Produção Animal nos Países Baixos evidencia um grau de
intensificação elevado, ilustrado pelos níveis do encabeçamento,
da utilização de alimentos compostos, e da incorporação de
fertilizantes minerais e orgânicos no solo.
Estes
vectores, associados ao elevado desenvolvimento técnico, determinam
uma elevada competitividade, nomeadamente da Produção Leiteira.
Como
é ilustrado pelo Gráfico seguinte, encontram-se nos Países Baixos
as densidades animais mais elevadas da UE.
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Gráfico
II
- Encabeçamento na
UE

Fonte :
LEI, 1995
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Todavia,
o sistema de produção tem custos ambientais elevados. As
estimativas existentes indicam que o Sector Agrícola é fonte de
56% da poluição com nitratos das águas superficiais e de 40% da
poluição com fosfatos, enquanto que as emissões “agrícolas”
de amónia, que causam desequilíbrios graves nos ecossistemas, são
responsáveis por 42% da acidificação dos solos.
As
Autoridades atacaram a resolução do impacto ambiental da pecuária
já desde meados da década de 80.
Numa
primeira fase (87/90), os esforços concentram-se na estabilização
da produção de efluentes pecuários, através de medidas de
controlo dos efectivos.
A
segunda fase (90/98) teve por objectivo reduzir substancialmente o
impacto ambiental dos efluentes pecuários, e consistiu
fundamentalmente na instalação de estações de tratamento de
grandes dimensões.
Esta
solução foi progressivamente abandonada, face aos elevados custos
que implicava, e foi decidido alterar a abordagem do problema através
da introdução da “gestão de minerais” na exploração. Foi
assim iniciada em 1998 a terceira fase, cujo final está previsto
para 2003.
Sistema
de registo dos minerais (MINAS)
Face
à coexistência dos diversos segmentos
pecuários (avicultura, suinicultura, produção de
leite,...) no território, foi concebido um plano global para
resolver os seus efeitos ambientais, apesar de existirem
paralelamente medidas especificas visando cada um dos sub-sectores.
A
gestão dos minerais (principalmente azoto e fósforo) ao nível da
exploração assume um papel nuclear, sendo que a minimização do
impacto ambiental da pecuária depende em grande parte da sua
eficiência.
O
sistema MINAS consiste na elaboração do balanço
de minerais em cada exploração pecuária, através do registo
das “entradas” (inputs) e das “saídas” (outputs) de
minerais. O diagrama seguinte ilustra o conteúdo destas
entradas e saídas.
Diagrama
do MINAS

O
saldo entre “entradas” e “saídas” é calculado anualmente,
e, sendo sempre positivo, representa a perda de minerais na exploração.
Esta perda, que é o excesso de minerais da exploração, é a
principal fonte de contaminação do Ambiente.
Os
teores em minerais dos fertilizantes químicos e orgânicos, e dos
alimentos concentrados são indicados pelos fabricantes, enquanto
que os efluentes que saem da exploração para tratamento e eventual
venda são analisados por laboratórios autorizados.
Os
minerais incorporados nas “entradas” e “saídas” de animais
e produtos de origem animal são calculados com base em valores
padrão,
por animal ou por unidade de produto (leite, carne,...). Por outro
lado, os minerais correspondentes às “saídas” dos produtos
vegetais são estimados a partir de valores padrão, por hectare
cultivado.
São
sempre descontadas as perdas inevitáveis de nutrientes que decorrem
da aplicação de efluentes no solo e da alimentação dos animais,
estando fixados valores máximos para as perdas (excessos)
permitidas de azoto e fósforo, as denominadas perdas-padrão. Como
se observa no Quadro I, os valores fixados para as perdas padrão são
decrescentes no tempo, e portanto crescentemente restritivos.
Quadro
I
- Perdas-padrão
para nitratos, em kg/ha/ano
|
Ano
|
Perdas-padrão
|
|
|
Fosfatos
|
Nitratos
|
|
Solos aráveis
|
Pastag
|
Solos
aráveis
|
Pastagens
|
|
Normal
|
Argiloso
|
Arenoso
|
Norm.
|
Argil.
|
Aren.
|
|
1998/99
|
40
|
175
|
300
|
|
2000
|
35
|
150
|
275
|
|
2001
|
35
|
125
|
150
|
125
|
250
|
|
2002
|
30
|
25
|
110
|
150
|
100
|
220
|
190
|
|
2003
|
20
|
100
|
60
|
180
|
140
|
Quando
a perda de minerais da exploração ultrapassa os valores das
perdas-padrão, há lugar ao pagamento de multas, com valor
proporcional ao volume de nutrientes em excesso. Devido ao montante
elevado que aquelas podem atingir, o sistema estimula os Produtores
a aumentar a eficiência na utilização dos minerais.
As
Autoridades que gerem o sistema MINAS não o encaram como uma fonte
de proveitos, mas como um instrumento ao serviço dos Produtores
para aferir e aperfeiçoar a gestão de minerais.
O
valor das taxas a cobrar pela “perda de minerais” nas explorações
registou evolução crescente desde 1998, que expressa uma exigência
também crescente no relacionamento entre as Explorações pecuárias
e o Ambiente. Obviamente, foi programada uma adaptação faseada dos
Produtores às normas de protecção ambiental.
Desde
o início do ano corrente a aplicação do MINAS abrange a
totalidade dos produtores pecuários, após uma fase inicial
(1998-2000) em que a sua aplicação apenas foi obrigatória nas
explorações com encabeçamentos superiores a 2,5 CN/ha.
Em
simultâneo com a introdução do MINAS, foram estabelecidas restrições
ao espalhamento de efluentes no solo, nomeadamente a interdição
entre Setembro e Outubro (devido aos riscos de contaminação das águas),
assim como foi limitada a quantidade de azoto aplicável anualmente.
A aplicação de fertilizantes minerais no Inverno será também
proibida a curto prazo.
Os
Países Baixos obtiveram uma derrogação da Directiva CE 91/76*
para as pastagens, sendo nestes casos permitida a aplicação de 250
kg de azoto/ha devido à sua elevada absorção de minerais do solo.
|
Quadro
II - Aplicação máxima de azoto
|
(Kg/ha/ano)
|
2002
|
2003
|
|
Pastagens
|
300
|
250
|
|
Solos
aráveis
|
210
|
170
|
*
estabelece em 170 kg/ha a aplicação anual máxima de azoto
no solo |
O
cumprimento dos parâmetros apresentados no Quadro antecedente
pressupõe um encabeçamento máximo próximo das 2.0 CN/ha, pelo
que os Produtores são conduzidos a reduzir os efectivos ou a
aumentar a superfície agrícola da exploração. Como estas opções
nem sempre são viáveis, podem em alternativa efectuar contratos
com outros Produtores agrícolas ou entidades processadoras de resíduos,
com o objectivo de retirar da exploração os efluentes em excesso,
que não podem ser aplicados nos solos da sua exploração.
No
caso de transferência de efluentes entre explorações, é necessário
comprovar o défice de minerais por parte da exploração receptora.
Com
o objectivo de aumentar a eficiência do processamento de efluentes,
decorrem diversos estudos no campo da compostagem e do
desenvolvimento de concentrados minerais.
As
explorações devem também dispor de uma capacidade de armazenagem
de efluentes adequada, que seja adequada ao respectivo volume
produzido e ao período de interdição do espalhamento.
Para
minimizar as perdas de amónia para a atmosfera, as estruturas de
armazenagem devem ser cobertas, enquanto que a aplicação de
chorumes deve ser efectuada preferencialmente por injecção no solo
(obrigatória nas pastagens).
A
legislação ambiental dos Países Baixos contem normas objectivas e
exigentes, mas permite que o Produtor utilize os métodos que melhor
se ajustam às condições específicas da sua exploração. Assim,
é possível minimizar o impacto ambiental da actividade, sem
colocar em risco a sua viabilidade económica.
Em
Portugal
Entre
nós, muito pouco está feito neste domínio. A
sensibilização e o esclarecimento sistemáticos dos Produtores às
Boas Práticas Agrícolas está por fazer, apesar de haver atribuição
regulamentar de responsabilidades públicas no caso; ainda não é
conhecido com rigor o grau dos problemas que possam existir nas relações
entre a produção leiteira e o ambiente, embora essa lacuna possa
ser colmatada com a conclusão do diagnóstico atrás citado; a
legislação existente está parcialmente desactualizada e dispersa,
existindo além disso discriminações regionais na sua aplicação;
os encabeçamentos regionais não são conhecidos, pelo que não se
conhecem as regiões prioritárias para ataque aos eventuais
problemas que possam existir; a “urbanização” do meio rural
continua a registar avanços desordenados, sem que sejam tidos em
conta os problemas económicos e sociais assim criados aos
Produtores.
A
letargia que parece afectar todas as entidades envolvidas no
processo é preocupante. Mas existem responsabilidades partilhadas,
publicas, colectivas e privadas, que têm que ser assumidas.
A
FENALAC tem em curso diversas acções para intervir nesta área,
que pode ser um excelente exemplo da colaboração e concertação
entre os Poderes Públicos e as Organizações
Agrícolas. Na
realidade, é urgente incentivar e reforçar todas as acções que
visem a resolução destes problemas, que incorporam a esfera
colectiva e que têm expressão nacional.
Do
ponto de vista dos Produtores, o assunto não deve ser encarado como
uma penalização adicional, seja porque todos as Partes envolvidas
têm que assumir intervenção responsável na resolução dos
problemas existentes, seja porque podem existir oportunidades para a
valorização económica dos efluentes como fonte energéticas ou de
fertilização do solo.
A
evolução da PAC no sentido de sintonizar a rentabilidade das
actividades agrícolas com o respectivo desempenho ambiental é
inexorável. Importa pois avaliar com urgência e rigor a situação
e a amplitude dos problemas existentes, e identificar e activar
meios de acção para os atacar.
Fernando Cardoso, FENALAC
Publicado
em 20-12-2001
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