Carta aberta aos meus Colegas Deputados Socialistas do
Parlamento Europeu
A Política
Agrícola Comum foi essencial para consolidar o projecto comunitário, desempenhou
um papel altamente positivo no pós-guerra e fez face, com êxito, a uma situação
de grande carência alimentar.
Foi
concebida para manter preços elevados aos agricultores, como estimuladores da
produção.
Estes preços
foram apoiados por subsídios e pela imposição de um elevado controle das
importações, vigorando o princípio da preferência comunitária.
Com efeito,
desde meados dos anos 50 até hoje, houve um fortíssimo aumento da produção, o
qual foi acompanhado por uma enorme evolução do conhecimento científico e
tecnológico.
Acontece que
esse fortíssimo aumento de produção foi muito superior ao crescimento do
consumo, invertendo completamente a situação de carência alimentar que levou à
criação da PAC.
Hoje, o
principal problema do sector é o excesso de produção.
A política
agrícola, com quase meio-século, sempre baseada em fortes subsídios, criou uma
mentalidade característica e facilitista a muitos agricultores, bem como às
suas associações.
A verdade é
que, em vez de analisarem e discutirem as políticas ligadas ao sector, muitos
agricultores e as suas associações criaram o mau hábito de somente exigirem
mais e mais subsídios.
A
PAC,
voltada para a quantidade produzida e subsidiando forte e prioritariamente as
produções que ocupam menos mão-de-obra, deu um grande contributo para a elevada
concentração das explorações agrícolas e acelerou de forma impiedosa a
desertificação rural.
Os subsídios
são concedidos, como se sabe, em função da dimensão da exploração agrícola e da
quantidade produzida; quer isto dizer que são obtidos na sua quase totalidade
pelos agricultores maiores e mais produtivistas, criando profundas injustiças,
contribuindo para um risco crescente da qualidade e segurança alimentar e
fomentando muitas vezes um aumento desnecessário das agressões ambientais bem
como da utilização dos recursos naturais não renováveis.
Para se ter
a noção com algum rigor da dimensão catastrófica da desertificação rural
entretanto ocorrida e do aumento em flecha da produção registado no sector,
basta referir que, nos anos 50 a agricultura europeia ocupava 45% da população,
ao passo que hoje são menos de 5% os que nela trabalham e produzem oito vezes
mais.
Isto é, a
população agrícola diminuiu nove vezes e a produção aumentou oito.
Mas se o
objectivo da PAC continuar a ser fomentar o produtivismo desenfreado num sector
que utiliza a natureza como fonte de produção, com o alargamento da União às
novas potências agrícolas e a garantia da evolução ainda mais rápida do
conhecimento científico e tecnológico, a situação a médio prazo, tornar-se-á,
explosiva.
A manutenção
desse objectivo exigirá que as instituições se responsabilizem politicamente
pelos excedentes crescentes na produção, pela continuação da deterioração da
cadeia alimentar, pelo aumento desnecessário e irresponsável das agressões
ambientais e, seguramente, por uma população não superior aos 2% ligada ao
sector.
Desde que a
PAC foi concebida até aos nossos dias, apesar das incríveis mudanças ocorridas,
a sua filosofia política de base manteve-se, tornando-a uma peça de museu, que
sobrevive graças à rotina e acima de tudo aos enormes interesses ilegítimos que
criou.
Hoje dão-se
subsídios para fomentar a produção mas, em simultâneo, subsidiam-se a retirada
de terras, como acontece, por exemplo, nos cereais.
Impõem-se
fortes regimes de quotas com o objectivo de travar o excesso da produção, como
acontece, por exemplo, no leite.
Subsidiam-se
em larga escala as armazenagens para aliviar o excesso de oferta, como acontece
com a carne.
Pratica-se
um vergonhoso dumping comercial nas exportações, com produções
"dopadas" com 70% de subsídios em relação ao valor real do produto,
como acontece com os cereais, aqui, com a agravante de arrasar completamente as
agriculturas dos países mais pobres.
Utilizamos
os nossos excedentes de produção, sem mercado, para praticar a piedosa caridade
da ajuda alimentar aos países mais pobres, depois de termos arruinado as suas
agriculturas com o vergonhoso dumping à exportação.
Para
justificar toda esta produção "dopada" em subsídios, falamos
hipocritamente nos mais de 800 milhões de cidadãos que existem no mundo com
fome, mas todos sabemos que essas pessoas são vítimas, não da escassez ou da
incapacidade de produzir alimentos para lhes matar a fome, mas sim da injusta repartição
da riqueza que os impede de terem acesso a recursos para comprarem alimentos.
Vale a pena destacar mais algumas situações escandalosas
1.
Cereais
São a
produção mais desertificadora do mundo rural por ser a que menos mão-de-obra
ocupa.
Os cereais
representam as maiores explorações agrícolas da Europa e são uma produção
largamente excedentária.
Este sector
representa somente 10% do produto agrícola comunitário, no entanto recebe 47%
de todos os subsídios destinados ao sector.
2. Hortofrutícolas
É uma
produção que ocupa 17 vezes mais mão-de-obra por hectare do que os cereais.
A média da
dimensão das explorações agrícolas hortofrutícolas é seis vezes menor do que as
dos cereais.
Este sector
representa 16% da produção Comunitária, isto é, mais 6% do que os cereais.
A União é
deficitária neste sector, ao contrário dos cereais em que é excedentária.
Apesar
destas enormes diferenças, os hortofrutícolas recebem 4% dos subsídios, isto é,
12 vezes menos do que os cereais.
Poderá pois
perguntar-se : Será que alguém duvida que uma das consequências políticas para
PAC é o desemprego e a desertificação do mundo rural ?
3. Cadeia alimentar
A manutenção
dos subsídios à produção e à exportação são aceleradores incontestáveis do
produtivismo no sector agrícola, pondo cada vez mais em risco a saúde pública,
o bem-estar animal e o meio ambiente.
O caso das
vacas loucas representa apenas a ponta do iceberg.
Para
acelerar a produção assiste-se à utilização, clandestina, crescente, de
hormonas altamente cancerígenas.
Por outro
lado, assiste-se ainda à intensificação da utilização de antibióticos como
única forma de garantir a sobrevivência da elevada concentração de animais na
pecuária intensiva, com forte incidência na saúde pública.
São
introduzidos os organismos geneticamente modificados, muitos deles, sem o
prévio conhecimento do seu efeito nas pessoas.
O
aproveitamento, já detectado, de lamas de esgotos e resíduos industriais para a
alimentação animal provoca a disseminação de dioxinas que afectam a saúde
pública.
A utilização
descontrolada de pesticidas tem um forte impacto negativo na saúde.
Poderá pois
perguntar-se : Será que alguém duvida que outra das consequências da PAC que
subsidia a quantidade produzida é pôr em risco a saúde pública ?
4. Dualização da cadeia alimentar
O descrédito
crescente da cadeia alimentar está a abrir o caminho a dois modelos de produção
agrícola.
Um, para os
ricos e informados, que estão a passar crescentemente para o consumo do modelo
de produção biológica, e outro para os mais carenciados e desinformados, que
consomem o modelo de produção fomentado pela PAC
Há ainda uns
outros consumidores, desorientados, que alteram por medo os hábitos alimentares
na ânsia de preservarem a sua saúde.
É
inaceitável, no plano ético e político, fomentar duas cadeias alimentares, uma
para ricos e informados e outra para pobres e desinformados, quando o principal
objectivo da PAC deveria ser o de subsidiar a qualidade e segurança alimentar.
5. Meio ambiente e utilização dos recursos naturais
Muitas das
agressões ao meio ambiente e abusos na utilização dos recursos naturais
devem-se à política produtivista imposta pela PAC, a qual exige que se produza
o máximo possível, ainda que, muitas das vezes, seja somente para captar subsídios.
A
incentivação da utilização e da destruição de recursos naturais é um crime,
pois coloca em risco a sobrevivência das gerações futuras.
Ao contrário
do que faz a PAC, a agricultura deveria reger-se por uma política de utilização
dos recursos naturais, baseada em fortes critérios éticos que combatessem o
egoísmo produtivista reinante.
A PAC sempre
procurou confundir a actividade agrícola com a actividade industrial, cujo lema
é produzir o máximo com o mínimo de custo.
Há, no
entanto, uma diferença fundamental entre as duas actividades - a agricultura produz à custa da utilização da natureza,
que é um património colectivo, do qual depende a sobrevivência de todos os
cidadãos do mundo.